Quebra de sigilo

Luiz Sanches

Luiz Sanches

O presidente comprou um carro particular! Um fato estranho: naquele tempo vereador não recebia nada pelo cargo, não existiam subsídios, nem verba de representação. O presidente também não era empresário, nem ganhara na loteria…

Para a população o fato passava despercebido. A maioria das pessoas trabalhava na Capital, poucas freqüentavam a Câmara e a imprensa em nosso Município, praticamente ainda não existia, porque os jornais da época, de propriedade de alguns vereadores, só eram editados quando o Poder Público tinha matéria cuja publicação era obrigatória, e isto duas ou três vezes por ano.

O Presidente estaria tranqüilo se fosse unanimidade, quer dizer, se estivesse ocupando o cargo com o voto favorável de todos os componentes da Casa, o que não havia acontecido! E assim, poucos dias depois, um vereador adversário, com o faro surpreendente de observador atento, “levantou a lebre,” conseguindo (senão descobrir) pelo menos imaginar o grande mistério de tal proeza…

Indignado, o presidente queria então encontrar alguém que se lhe afigurasse como o “dedo duro”, que tivesse descoberto e divulgado o segredo da mágica do presidente para conseguir o dinheiro. E a quem ele poderia atribuir essa provável “falha administrativa”, que provocou o vazamento da informação? Claro, ao Secretário administrativo, o responsável direto pela contabilidade, pelos pagamentos das contas do Legislativo… Este, sem a menor sombra dúvida, teria sido o arauto, o “anunciador infame” daquela notícia que, embora ainda não tivesse se espalhado, chegara aos ouvidos do seu principal adversário o qual, certamente, iria se encarregar de lhe dar maior divulgação.

Assim, na visão do presidente acabei me tornando o grande culpado, passível de uma seriíssima punição, acusado pela quebra de um ato sigiloso. Salvou-me deste triste e lamentável episódio, a interferência direta do Prefeito, livrando-me de um desgastante processo administrativo, por estar “difamando um homem de bem”.

Sob a minha ótica, a participação do prefeito, numa demonstração de grande habilidade política, foi extremamente providencial: não só acertou as diferenças entre os vereadores – cujo provável rendimento financeiro deve ter sido dividido – como também me livrou de uma acusação injusta que me transformava no principal e direto responsável pelo vazamento do segredo na compra do carro… E, ainda de quebra, talvez o mais importante: NINGUÉM MAIS FICOU SABENDO, NEM MESMO O ELEITOR…

 

 

 

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