Apagão

Elioenai Piovezan

Elioenai Piovezan

Primeiro era precisa encontrar uma vela. Após várias apalpadelas pelos móveis, gavetas e outros cantos da casa, a moça encontrou uma que sobrara do aniversário do filho e, que para aquela emergência, vinha bem a calhar. Mas para acendê-la precisava de fósforo. O fogão não servia, pois só tinha acendedor automático elétrico. Mais algumas buscas feitas e encontrou uma caixinha de fósforos. Após uma operação atrapalhada de riscar vários fósforos enquanto segurava o pires e a vela ao mesmo tempo conseguiu acendê-la. E assim houve luz.

Enquanto isso, não só o quarteirão, o bairro ou a cidade continuavam às escuras. A moça só tomou conhecimento das proporções do fato quando o namorado chamou-a no celular avisando que se tratava de um apagão (uma queda geral no fornecimento de energia elétrica) que atingiu pelo menos 18 Estados. Nas horas seguintes não conseguiu dormir, preocupada com o rapaz que ia para o trabalho. Sintonizou uma rádio no celular e ficou escutando as notícias. Dormiu e sonhou.

Sonhou com um mundo cheio de luz e beleza em que os homens só falavam a verdade e podiam acreditar cegamente uns nos outros. Sonhou que naquele mundo não havia espaço para discórdias nem ódio nem desejo de vingança, pois todos perseguiam um só objetivo: a felicidade.

Enquanto sonhava, a moça nem imaginava que nas redações de jornais e salas de apartamentos de jornalistas, blo-gueiros e políticos se maquinava uma forma de achar um culpado para o apagão. Pois no mundo real o que vale não é a verdade, mas o que as pessoas acham que é verdade.

Nem bem amanhecia e os jornais, rádios, televisões e internet já traziam as mais sórdidas e infundadas especulações sobre as causas do tal apagão: ataque de hackers, acidente na operadora, incompetência da Dilma… Mais uma vez, a oposição, que nunca arranjava tempo para apresentar projetos decentes e realizáveis ao País, articulava discursos para atingir a candidata de Lula. Como em uma guerra a primeira vítima é a verdade, muitos jornais, orquestrados por políticos sem escrúpulos, afinavam a cantilena da “falta de investimentos do governo no setor energético” e outros blá-blá-blás. Não enxergavam (ou não querem enxergar), por exemplo, que o Brasil possui uma rede de distribuição de energia que serve como referência ao mundo inteiro. Um apagão nos EUA, em 2003, que deixou toda a Costa Leste às escuras só foi resolvido após dias. No Brasil, em apenas três horas, o fornecimento de energia já estava restabelecido.

A moça acordou. A luz do sol invadia o seu quarto pela janela sem cortina. A vela se consumira completamente. Espreguiçou-se lentamente e estava feliz. Feliz por ter sonhado com a felicidade. Feliz por saber que pelo menos num certo cantinho de nossas mentes habita a verdade e que ainda podemos ser felizes.

 

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