Folhas rasgadas

Por Elioenai Piovezan
Talvez um dia os psicólogos ou antropólogos ou sociólogos ou psicopedagogos expliquem o porquê dos alunos das escolas estaduais rasgarem seus cadernos ao final de cada ano letivo. O ritual já se espalhou por todas as escolas da região, e nem os chamados “Cadernos dos Alunos” (distribuídos em quatro volumes por disciplina) escaparam do rasga-rasga.
A adolescência é mesmo essa etapa passageira e de transição da vida, tão efêmera quanto a vida desses pobres cadernos. Talvez esse material represente isso mesmo: o adolescente vivendo sua intensidade; e, por não compreender ao certo o que é a vida e quais seus objetivos, transfere seu desapontamento com o mundo para algo que o acompanhou durante o ano inteiro.
Para um professor, é sempre triste observar alunos rasgando seus cadernos, sejam os comprados por seus pais, sejam os distribuídos pelo governo (com o nosso dinheiro, é claro). É difícil romper com a prática conteudista, mas a despeito de toda estratégia de ensino-aprendizagem que busca desenvolver habilidades e competências, os tais cadernos carregam um certo conteúdo.
Mesmo com falta de continuidade dos temas, superficialidade e a fragmentação dos assuntos, atividades que não constam do Caderno do Professor, entre outros, o Caderno do Aluno contribuiu para tornar as aulas mais dinâmicas (sem perda de tempo com cópia da lousa) e uniformizou esse material para todo o Estado.
Mas como os alunos não são bobos, eles também uniformizaram e disponibilizaram as respostas das atividades de todos os Cadernos dos Alunos na internet, criando assim a maior “cola” de todos os tempos. Quer conferir, acesse o blog: (www.blogcadernodoaluno.blogspot.com).
A “troca de informações entre os alunos na rede” (ou super cola) é um assunto que o governo terá que analisar antes de preparar a próxima remessa de Cadernos do Aluno. Se o governador Serra e o secretário de Educação Paulo Renato tratassem os alunos com o mesmo “carinho” com que trata os professores, talvez o resultado fosse ainda pior. Provão eliminatório para o professor temporário, imposição de calendário escolar, desrespeito às reivindicações da categoria, falso plano de carreira com promoção de mérito discriminatória, além da defasagem salarial e da política de gratificações. Esses são só alguns dos entraves que colocaram professores e governo em posições totalmente opostas (e os alunos no meio) ao longo de 2009.
Assim, o fechamento do ano letivo não poderia ser diferente. Melancólico, sem louros, champanhe ou chave-de-ouro, mas com muitos confetes feitos de milhares de páginas picadas dos Cadernos do Aluno. Caderno que, conforme o músico Chico Buarque, deveria ser o “amigo fiel” do aluno. E nem mesmo o apelo final parece ter sido ouvido: “Só peço a você um favor se puder / Não me esqueça num canto qualquer“.


Estamos novamente à espera de novas folhas rasgadas.Não estou preparada mais uma vez para isto, e vc está meu Nobre Colega???