Recomeçar

Por Elioenai Piovezan

Por Elioenai Piovezan

O ano de 2009 acabou. E, com ele, sempre ficam boas e más lembranças. Agora é um momento de balanço, não apenas do comércio e dos negócios em geral, mas de nossa própria vida: sentimental, familiar, social, política, religiosa. É o momento de darmos continuidade ou de modificarmos planos, sonhos, desejos. É o momento de reiniciarmos a vida, tocá-la em frente “como o velho boiadeiro, tocando a boiada”.

E por falar em tocar a vida e recomeçar, dizem que quando vivenciamos uma situação de morte iminente, é comum vermos nossa vida ser exibida como em uma tela, acelerada ou em câmera lenta. É o que conta meu primo Vanderson – motorista de caminhão e morador do Guarujá – que certa vez se envolveu em um acidente de trânsito. Após seu caminhão bater em outro veículo, numa fração de segundos, viu a cabine de seu cavalinho sendo prensada. Com muita adrenalina ou milagrosamente (com uma mãozinha de São Cristóvão?), ele se lembra de cada detalhe. O cavalinho, pressionado pela carreta, subindo e descendo como uma chicotada. Nesse intervalo de tempo, dentro da cabine, tudo parecendo se mover muito lentamente. Primeiro, ele se desvencilha do banco, que recebe todo o impacto do volante. Em seguida, puxa a perna esquerda para trás, livrando-a de ser esmagada pela lateral. E, finalmente, antes do cavalinho atingir o chão, Vanderson já percorre o seu interior até a janela menor oposta, por onde sai e se salva do impacto fatal. E as imagens dos entes queridos o acompanhando a todo instante…

Até hoje nem ele, familiares, amigos ou o pessoal do Resgate entenderam como foi possível alguém ter saído daquele acidente com vida. E isso não é um recomeço?

Assim, nesse início de ano, com tantas mortes causadas por desastres “naturais”, como enchentes e deslizamentos de terra, os sobreviventes se dividem entre chorar pelas perdas e agradecer pela nova oportunidade recebida, e tendo que recomeçar suas vidas.

Em escala global, acredito que a Humanidade vive também uma situação de morte iminente, mas não a percebe porque está cega, surda e muda (como o jovem Tommy da ópera musical do The Who). Está tão envolvida com seus próprios problemas – sempre rotineiros e de interesses imediatos –, que não percebe a destruição paulatina e irreversível do próprio planeta.

Os governantes, que em geral visam à manutenção do status quo (do latim, quer dizer “estado atual das coisas”), não assumem compromissos realmente concretos para frear a desintegração da vida terrestre. Rara exceção é o presidente Lula que, por ocasião da Conferência do Clima, em Copenhague (Dinamarca), criticou duramente os países inertes e afirmou que reduzirá o desmatamento da Amazônia em 80% até 2020.

Por nossa parte, devemos continuar valorizando a vida (de preferência sem experiência traumática), mas não esquecendo que somos parte da natureza. E, por isso, respeitá-la é respeitar a própria vida. É preciso também que estejamos sempre preparados para recomeçar a cada ano, tocar a vida (na mesma casa ou na casa nova, como a prima Vanessa) e colocar em movimento as engrenagens do moinho que move e realiza planos, sonhos e desejos.

Feliz 2010 a todos!

 

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