Criação

Por Elioenai Piovezan
Em nossa curta existência, jamais daremos conta de toda a literatura escrita pelo Homem. É verdade que os nossos critérios de leitura se dão pelo interesse ou necessidade imediatos. O interesse pode ser despertado pela curiosidade própria ou por indicação de alguém. A necessidade é despertada por uma tarefa a ser cumprida e a leitura nem sempre é prazerosa, mas pode ampliar nosso conhecimento (meio na marra, é verdade).
Bem, das formas descritas acima, acatei a sugestão do tio Edson, que lê com certa frequência, entre carretos que realiza com sua perua e enxadadas que dá em seu sítio ao pé da Serra do Mar. A leitura em questão é o conto “Adão e Eva no Paraíso”, de Eça de Queirós. O escritor português, do final do século XIX (e contemporâneo de Charles Darwin, autor de “A Origem das Espécies”, que até hoje causa arrepios entre os membros das igrejas conservadoras), narra a alegoria da Criação do Mundo, focando em Adão, “Nosso Pai venerável”, semeador das bases da sociedade atual. Mesclando Criação e Evolução, o Adão de Eça desce das árvores, libertado de sua animalidade e, diferenciando-se dos outros primatas, começa a explorar o Éden, sobre suas duas patas. Peludo, soltando grunhidos, se maravilha a cada descoberta. Flora e fauna são descritas com detalhes típicos do Realismo machadiano. A Terra teria sido criada no dia 23 de outubro, e Adão no dia 28. Naqueles “dias genesíacos”, o Sol girava em torno da Terra.
Entre suas aventuras de exploração do Éden, Adão presencia uma acirrada luta entre um ictiossauro e um plesiossauro. À noite, protegido por um anjo, adormece no chão entre feras que o miram com fome.
Na terceira parte do conto, surge Eva, que amanhece deitada sobre o corpo de Adão. Então, os dois enfrentam juntos vulcões, terremotos e grandes enchentes (”longas chuvas edênicas”). Em seguida, vem a seca. Os dois emagrecem. “Medo, Fome e Furor foram as leis da vida no Paraíso”. A necessidade faz Adão criar, a partir de lascas de pau e seixos afiados, a lança. Depois o martelo. Das faíscas das pedras, os dois descobrem o fogo. Dentro da caverna, Eva assa a primeira carne, tece as primeiras roupas, alforjes, colchão e cobertores. Planta as primeiras sementes. Adão, às vezes irritado com a sabedoria da companheira, “arrebata pelos cabelos a sua fêmea, e a derruba, e a pisa sob a pata calosa”.
Dessa alegoria, aprendemos a lição deixada por Eça e por tantos filósofos e profetas. A do Amor, ao próximo e à Natureza. Para Eça, o homem sofre “por arrastar consigo, irresgatavelmente, esse mal incurável que é a sua alma!”.
A literatura é assim, não está presa às convenções e dogmas da Religião, da Filosofia ou da Ciência. Não é preciso nem ser arrogante, prepotente ou lógica. Ela é criativa, dialoga com o conhecimento e com os sentimentos, comunica pelo inusitado da ótica particular de seu autor, divide sua idiossincrasia com o conforto (ou desconforto) de nossas crenças (ou descrenças). E, como o tio Edson, vamos fazendo os carretos de nossas vidas e zelando pelos nossos quintais. Eta vida boa, meu Deus!




