O contador de histórias

Elioenai Piovezan
“Aquele livro me levou a outro mundo, parecia que tinha cheirado tíner”. A frase é do ex-menino de rua, Roberto Carlos Ramos, após a leitura de “20 mil léguas submarinas” (de Júlio Verne). A vida de Roberto Carlos Ramos é narrada em “O contador de histórias” (filme de Luiz Villaça), que nos transporta ao final da década de 70, quando o governo da Ditadura Militar tentava vender uma imagem positiva e ideal da Febem (Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor).
O menino fora levado àquela instituição, em Belo Horizonte, por que sua mãe não tinha condições de criá-lo junto com os outros nove filhos. E lá, o pequeno Roberto desenvolveu todos os vícios para conseguir sobreviver. Fugiu mais de 100 vezes e cometeu diversos delitos. Com forte ironia, as imagens apoiam a descrição do tratamento que recebia na Febem, já naquela época: comida de qualidade (uma verdadeira gororoba), natação (sessão de afogamento), quarto privativo (castigo na solitária) e orientação pedagógica (tapas na nuca).
Mas a vida de Roberto Carlos muda radicalmente quando ele conhece a pedagoga francesa Margherit Duvas (interpretada por Maria de Medeiros), que o acolhe e o envolve num trabalho de pesquisa. O menino decide contar sua história e o faz com uma habilidade incrível, usando metáforas e uma imaginação surpreendente. Isso é transformado em cenas com rara beleza pela lente de Villaça.
Hoje, Roberto Carlos Ramos é professor e é considerado um dos maiores contadores de história do mundo.
Com tantas histórias boas, humanas, reais, sensíveis, de lições de vida, de exemplos de ações sociais possíveis, a sociedade infelizmente prefere se alimentar de violência e morte, presentes na maioria dos filmes, principalmente os hollywoodia-nos.
Filmes como “Avatar” (James Cameron) e “Guerra ao terror” (Kathryn Bigelow), ambos fortes candidatos ao Oscar, são dois exemplos de que o interesse pela bilheteria supera a própria mensagem. O primeiro narra uma fantástica história interplanetária de guerra pela sobrevivência. A raça humana, dessa vez, é o predador. Mas, por mais que o enredo traga uma mensagem ecológica, o filme parece ser um belo pretexto para que Cameron se utilizasse de toda tecnologia disponível como as imagens em 3D (três dimensões) e se destacasse com o espetáculo da modernidade. Já “Guerra ao terror” nos remete ao Iraque e tenta dar realismo a algo que já é real, tratando o espectador como “voyeur” (que tem prazer em assistir…) de um “reality show” (já temos tantos BBB e agora Fazenda, não é?). A situação enfrentada no país do enforcado Saddam Hussein foi criada e é alimentada pelo próprio governo estadunidense.
Ora, fico então com a pureza de “O contador de histórias” e sua mensagem final, dita pelo protagonista real: “Não há pessoas irrecuperáveis, há pessoas não amadas, incompreendidas, sem oportunidades”. Que os governos façam a sua parte.




