Dignidade

Suas mãos sebosas e fétidas apalpam o lixo como o cego tateia a textura de uma publicação em braile. Os dedos contornam cada saliência e cada protuberância em busca de algo que ele considera comestível. Seus sentidos, pelos anos de vivência pelas ruas da cidade, desenvolveram habilidades especiais. O seu olfato virou faro e o fedor da podridão, que a uma pessoa comum seria repugnante, para aquele homem é o anúncio do banquete. Um pedaço de pão bolorento, velho e duro, é devorado em segundos por presas e molares quase animales-cos.

O andar, trôpego e sem rumo, revela um ser desesperançoso e despreocupado com as questões humanas. Tanto as mais quanto as menos importantes. As mais importantes são aquelas que buscam respostas desde a Antiguidade para perguntas como: de onde viemos, por que existimos e para onde vamos? Será que existe vida em outros planetas? E depois da morte? As menos importantes são aquelas perguntas mais banais da Atualidade: hoje tem jogo? Será que vai chover? Já começou a novela?

Na mente daquele mendigo desfilam imagens de um passado desbotado e confuso, pensamentos incompletos e incongruentes. Os olhos fitam o nada e o olhar perpassa as pessoas como se atravessasse um deserto, cuja única motivação instintiva é haver adiante um oásis para matar a sede. Os reflexos são lentos e às vezes abruptos, principalmente quando toma um susto. Uma coisas que mete medo é o caminhão de lixo que uma vez arrebatou um colega seu que dormia no meio de alguns sacos na calçada.

Seus pés pisam paralelepípedos com pesares poucos compreendidos. As pessoas o evitam a todo o momento. Como não expressa sentimentos e tampouco fala, só balbucia, é tratado sempre com indiferença. Quem perderia seu tempo – tão precioso e sinônimo de dinheiro – com aquele serzinho que simboliza o derrotado numa sociedade tão competitiva? Quem sairia de seu conforto aparente e de sua segurança blindada sob uma redoma de vidro para compartilhar qualquer coisa com aquele serzinho que representa uma ameaça iminente?

Aquele serzinho não possui casa, roupas limpas, carro, família. Não possui passado nem futuro. Ele apenas sobrevive.

Certo dia, num lapso de lucidez (ou numa estranha epifania), ele se vê menino, com uma mochila nas costas, caminhacan-tando alegremente para a escola, para aprender habilidades e competências. Ao chegar próximo à entrada, vê sua professora distribuindo panfletos e quer saber do que se trata. Ela explica que está em greve, que não é só por aumento de salário, mas principalmente por dignidade. Dignidade! Aquela palavra havia ficado na memória do menino. Dignidade! Ele a repetiu diversas vezes enquanto sua lucidez se esvaía junto com a lembrança.

Estático na calçada, ele sente uma lágrima escorrer pelo rosto. Dignidade! Aquela era a lição que ele jamais deveria ter esquecido, a condição que nenhum homem ou mulher deveria deixar de possuir, um motivo para viver e perseguir. Meio que transformado, ele começa a andar mais rápido e grita, batendo no peito e se dirigindo a todos que encontra pelo caminho: Dignidade, gente! Dignidade!

Elioenai Piovezan

Elioenai Piovezan

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