A história do homem que ajudou a fundar o PT de Osasco

A história da vinda de Paulo Lima de Arapiraca (Alagoas) para São Paulo, há quase 44 anos, caberia num livro. Ele conta que tinha 22 anos quando veio para a capital paulista em busca de uma oportunidade, cansado de trabalhar para os coronéis durante todo o ano, na plantação do fumo, e ainda ficar devendo depois de negociar o produto. “Queria mudar de vida. Peguei minha mala, coloquei na cabeça e gastei quase quatro dias para chegar a São Paulo”. Quando chegou à metrópole, Lima não tinha para onde ir e acabou dormindo por uma semana na Praça Princesa Isabel. Sem dinheiro, ele contou com Deus e com a sorte. “Encontrei o cantor Nelson Ned, que estava no início da carreira, pedi um lanche e ele pagou com satisfação. Depois disso localizei um amigo na rodoviária, que me levou para sua casa, onde dormi por três dias no banheiro, já que não tinha espaço”, relembra.

Paulo conta ainda que encontrou um tio em Osasco, que lhe deu abrigo, mas também por pouco tempo. “Acabei na casa de uma macumbeira, um lugar cheio de ratos e baratas”. Nesta época, ele decidiu tirar os documentos e conseguiu um emprego na Viação Barueri. Mas por seu envolvimento com o sindicato, foi mandado embora da empresa sem direito algum. Começava aí seu engajamento em torno de melhores condições de trabalho e salários.

Paulo relembra que em 68, no auge da Ditadura Militar, durante assembléia próximo à Igreja Matriz de Osasco, a Polícia prendeu várias pessoas. “Me escondi no confessionário da igreja e consegui me safar, mas três dias depois, acontecia a greve da Cobrasma. Embora vários líderes, operários, deputados e religiosos tivessem sido presos, continuei trabalhando no sindicato”, diz.

Paulo gosta de relembrar que neste período conheceu Carlos Lamarca, um dos principais integrantes dos grupos de esquerda que combateram na clandestinidade o governo militar. Ele era capitão do Exército, em janeiro de 1969, quando desertou do quartel de Quitaúna, em São Paulo. O ex-capitão acabou sendo morto pelo Exército, em 1971, quando já integrava o MR-8, depois de perseguição pelo sertão da Bahia. “Eu ganhei um jaleco dele que guardava com o maior carinho. Mas uma ex-mulher queimou minhas roupas e o mimo foi embora. Lamentei muito”, afirma.

Dois anos depois, em 1970, Paulo conseguiu um novo emprego, numa empresa de papelão. Em 1972, se tornou funcionário do Banco Bradesco, quando a repressão continuava em todo o país. “Mesmo assim, ingressei no Sindicato dos Bancários e em 1978 decretamos greve. No meu setor de 250 pessoas, todas paralisaram os serviços”. Paulo conta que neste mesmo dia, quando saiu para almoçar, foi detido por policiais do DOPS e da segurança do Bradesco. “Eles me pegaram e torturam com cortes na mão e na perna. Logo depois me entregaram a outros policiais que vinham de Cotia e me levaram para o DOPS”.

Neste mesmo ano, de 78, Paulo ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores em Osasco. “O partido foi criado no meio da classe operária, por meio de um metalúrgico que foi perseguido no período militar, preso e hoje é presidente do Brasil e um dos dez homens mais conhecidos do mundo. É uma história que me enche de orgulho. Eu sempre lutei pela Justiça. Tenho mais de 40 anos de Osasco e grande parte da minha vida foi dedicada aos carentes e àqueles que têm fome de Justiça”.

Por toda a sua luta, Paulo foi beneficiado com a Anistia, concedida em 4 de fevereiro deste ano. De acordo com Paulo Abrão, presidente da Comissão de Anistia, o governo tem o dever moral de reparar aqueles que foram prejudicados durante a Ditadura. “Para a Comissão de Anistia, o direito a reparação seja ela moral e/ou financeira não é uma benesse ou privilégio, mas sim uma obrigação do estado democrático de direito. Tortura é um crime contra a humanidade e o nosso comprometimento é com a verdade das vítimas”, ressaltou Abrão.

Paulo Lima veio de uma fazenda de plantação de fumo em Alagoas direto para São Paulo para lutar pelos carentes e pela Justiça em Osasco

Paulo Lima veio de uma fazenda de plantação de fumo em Alagoas direto para São Paulo para lutar pelos carentes e pela Justiça em Osasco

1 Comentário

  1. shirleide Lima disse:

    Paulo lima, orgulho de pai e de um cidadão brasileiro

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