Amigo da onça
Todo final de ano comemorávamos o Natal naquela antiga escola de Cotia, o Zacarias, com uma brincadeira dupla: o amigo secreto e o amigo da onça. O amigo secreto era decidido por meio de sorteio, como é tradicionalmente no mundo inteiro, e o presente geralmente era solicitado por meio de bilhetes colocados numa caixa. Já o amigo da onça era para quem realmente desejasse “presentear” algum colega com algo bastante inusitado e surpreendente.
O alvo
Havia naquela mesma escola uma certa diretora, conterrâ-nea de Monteiro Lobato, famosa por seus métodos severos e atitudes muitas vezes rudes de tratar alunos, professores e funcionários. O seu sorriso não era o suficiente para disfarçar o deleite a cada reprimenda ou discordância a novas ideias.
Uma vítima
Eu mesmo, certa vez, cheguei da faculdade de Jornalismo e precisava distribuir alguns textos a uma turma do Curso de Magistério. Não tendo conseguido em tempo hábil imprimir os textos, resolvi por minha conta e risco, levar o mimeógrafo para a sala de aula e terminar a impressão ali. Eu tinha plena consciência de que não estava comprometendo a qualidade da aula. A diretora, ao ver a cena, adentrou a sala de aula sem pedir licença e descarregou um caminhão de considerações desfavoráveis. O pito foi ali mesmo diante das alunas e ela usava o episódio como “exemplo a não ser seguido por futuros professores”.
O contemplado
O vice-diretor, uma amor de pessoa, era o retrato invertido de sua chefa. Ele dialogava com todos em pé de igualdade, respeitava as diferenças, ouvia as propostas de alunos e professores, procurava colocar boa parte delas em prática e até propunha soluções a conflitos e a quaisquer problemas que surgissem. Mas, era muitas vezes sistemática e fragorosamente barrado pela diretora, que aparentava uma satisfação quase doentia em impor seus métodos retrógrados e autoritários. Os ossos do ofício faziam com que ele convivesse a maior parte do dia com ela.
O presente
Chegou o dia do amigo secreto e do amigo da onça. Na sala dos professores, após alguns comes e bebes, teve início o amigo da onça. O saco de maldades (que não era nem de longe o do Papai Noel) foi aberto e presentes esdrúxulos começaram a ser distribuídos. Mas, nenhum deles foi capaz de superar o presente dado pelo professor de Geografia ao vice-diretor: “um troféu saco de ouro”. Já explico: o professor esculpira um saco escrotal de madeira pintado de dourado e justificou a brincadeira. “Para passar pelo que esse vice-diretor passa o ano inteiro é preciso realmente ter um saco de ouro…”.
A vingança estava concluída. Todos sabiam quem era o verdadeiro alvo do “presente” e daquela indireta “direta”. Ela, por sua vez, não sabia se vestia ou não a carapuça. Não sei se aquele vice-diretor ainda guarda o seu “troféu”. Não sei se mais tarde o professor de Geografia teve algum arrependimento. Também não sei se a diretora (hoje com certeza aposentada) teria mudado o seu jeito de se relacionar com os colegas. Só sei que naquele dia muita gente lavou a alma e se sentiu um pouquinho premiado pelo “saco de ouro” do amigo da onça.

Elioenai Piovezan


Olá amigo!Então esta história do Amigo da Onça Não é nova?E vc sabe q. até os dias atuais existe este Amigo?