O som da liberdade

Em vésperas da Copa do Mundo, a África do Sul passa a ser um país bastante “frequentado”, não só por turistas que já garantiram seus ingressos para assistir aos jogos, mas também por “turistas virtuais”, que acessam sites sobre o país da Copa 2010. Essa busca por informações, muitas vezes estimuladas por professores como tema de pesquisa escolar, ficaria incompleta se não assistirem ao filme “Sarafina – O Som da Liberdade”, do diretor Darell Roodt (1993).

A história se passa na década de 70 e é centrada em Sarafina, uma adolescente negra, que vive em Soweto, um bairro de Johannesburgo, em pleno regime de segregação racial, conhecido como Apartheid. Essa lei, imposta ao povo negro africano desde 1911, manteve a dominação por décadas e reprimiu as tentativas de mudanças utilizando, no conceito de Louis Althusser, tanto os Aparelhos Repressivos do Estado, como a polícia e o exército, quanto os Aparelhos Ideológicos do Estado, como a igreja, a escola, os sindicatos e os meios de comunicação.

A jovem Sarafina sonha com uma África do Sul livre, com brancos e negros convivendo em harmonia, em uma sociedade justa e democrática. Sua inspiração é Nelson Mandela, preso desde 1962 por ser um dos líderes do movimento antiapartheid. Encorajados pela professora de História Mary Massammbuko (interpretada divinamente por Whoopi Goldberg), os alunos preparam uma homenagem ao líder por meio de um musical que valoriza a história sul-africana. Não a “história oficial” (que ensina que os brancos dominantes tinham uma “missão” a cumprir ali: trazer os povos “bárbaros” à civilização), mas a história de resistência tendo negros e brancos como atores sociais e políticos.

O resultado não poderia ser outro. O projeto é interrompido, os alunos protestam e acontece a inevitável repressão: perseguições, prisões, torturas e mortes. Sarafina torna-se vítima direta do sistema racista e toma consciência, junto com seus colegas de escola, de que é preciso lutar, mas de forma inteligente para mudar o estado de coisas (status quo).

Com a pressão internacional e luta do CNA (Congresso Nacional Africano), o Apartheid terminou em 1990. Mandela foi libertado nesse mesmo ano (depois de 28 anos de prisão) e foi eleito presidente (1994-1999). Manter a unidade nacional, combater a pobreza e aprender a conviver com os resquícios da política racista de 75 anos têm sido tarefas difíceis para os seus sucessores.

Sarafina, deitada em seu quarto, esperando o início da Copa e olhando para o retrato de Mandela, hoje veria um ancião com seus quase 92 anos de idade e com a certeza do dever cumprido. A liberdade tão sonhada por ela finalmente chegou. Não veio como uma chuva torrencial, como muitos esperavam, mas como uma fina garoa que aos poucos vai umedecendo a pele e ensinando que, às vezes, a liberdade deve ser construída, tijolo por tijolo e com uma base sólida, para que nunca mais seja destruída.

Elioenai Piovezan

Elioenai Piovezan

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