Guerra de pneus

Elioenai Piovezan
Nos tempos de menino, uma das brincadeiras preferidas da molecada do meu bairro, o Parque Santo Antonio, era a guerra de pneus. Nós nos dividíamos em duas equipes, cada uma com uns dez pneumáticos. Escolhíamos quem ficava na parte alta da rua (porque era mais vantajoso…) e, ao sinal de partida, corríamos em direção à equipe adversária a toda velocidade, rolando os pneus com as mãos e calculando para que sempre houvesse bons impactos entre eles.
Longe das notícias de violência e da baixaria eleitoral dos dias de hoje, a cena não perdia em nada para os duelos de gesta, à moda das novelas de cavalaria da era medieval. Só que no lugar da armadura, havia calções, camisetas e chinelos de correia. Os elmos eram bonés. E as montarias eram os próprios pneus que também assumiam a vez das lanças. Não me lembro de haver donzelas torcendo pelos nobres (ou pobres) contendores. Nenhum lenço a ser agarrado pelo caminho e depois ser usado como pretexto para uma aproximação…
Os duelos se repetiam várias vezes e geralmente aconteciam à noitinha. Já o duelo eleitoral na televisão era condicionado à Lei Falcão, que limitava a propaganda a apenas apresentação do nome e do número dos candidatos. Não havia eleição para presidente nem para governador, pois o país era governado por uma Junta Militar, e os governadores e prefeitos de capitais eram todos nomeados.
Bem, a equipe vencedora era aquela que conseguisse passar com a maior quantidade de pneus para o lado oposto. Mas, a diversão das trombadas valia mais do que o orgulho da vitória. Vivíamos o momento e não o resultado. Obedecíamos a instintos de meninos: inconsequentes, ingênuos e arteiros, mas não machucávamos uns aos outros. Diferentemente das guerras noticiadas pela mídia, que obedecem a instintos de homens maduros, cujos interesses estão além da explicação racional ou plausível. Guerras, invasões, massacres, genocídios, atentados, chacinas, acusações, bloqueios econômicos, rompimentos de relações diplomáticas…
Sei que certas brincadeiras tendem a cair no esquecimento, dando lugar à sofisticação de um videogame (com jogos de guerras e violência infindáveis) que se joga dentro da segurança do lar. Sei também que cada geração inventa e reinventa seu jeito de brincar: guerra de pneus, mocinho e bandido, polícia e ladrão, bandeira, taco, mãe da rua, esconde-esconde, luta no brejo, duelo de espadas, pique latinha, queimada, bolinha de gude, bafo, passa anel e tantas outras.
Mas, escrevendo essas linhas, e lendo notícias como a acusação descabida do candidato a vice-presidente, Indio da Costa (DEM), contra o PT, acusando o partido de Lula e Dilma de ter “ligação com o narcotráfico e com o que há de pior”, dá vontade de jogar tudo pra cima e voltar a ser criança. A ausência de propostas consistentes para conquistar o eleitor leva tanto Serra (PSDB) quanto seu vice a partirem para um embate no mínimo deselegante e no máximo estúpido. Resultado: os tucanos terão que ceder ao PT espaço no site onde foi publicado o teor ofensivo.
Na infância é tudo mais simples, mas intenso. É um mundo à parte dos adultos, uma dimensão paralela. Por isso, os políticos e candidatos podem chamar seus adversários do que quiserem, mas, por favor, não os chamem de “crianças” nem os acusem de agir com “infantilidade”. Vamos preservar essa dimensão dos pequeninos, com suas guerras de pneus ou mesmo eletrônicas. O que não podemos fazer, nunca, é contaminá-los com nossas imbecilidades de adultos.

