Um duplo objetivo
Qualquer um, investido de cargo político, desde o Vereador até o Presidente da República será sempre procurado pelos eleitores em busca de alguma coisa, seja um melhoramento público, seja um pedido de emprego ou um favor qualquer; diariamente, muitos estarão em seu gabinete no aguardo de um atendimento agendado com os nomes e os respectivos assuntos a serem tratados.
Este não foi o meu caso, quando me dirigi à Prefeitura para falar com o Chefe do Executivo: funcionário do Legislativo de longa data, conhecedor profundo de todos os assuntos relacionados ao Município por estar ligado aos projetos discutidos e votados na Câmara Municipal, com um bom relacionamento entre todos os Vereadores e também com o Prefeito, (inclusive fui seu eleitor na época) esperava ter um atendimento melhor, com uma atenção até mais especial, mesmo porque o meu comparecimento à Prefeitura naquele dia possuía duas importantes finalidades: a primeira, a de ver até que ponto chegava o nível de amizade por parte do Chefe do Executivo e a segunda, a mais importante: entregar-lhe um presente…
Como colaborador de uma entidade religiosa, recebia todos os meses do Pastor algumas publicações evangélicas. Tomei um dos livros sobre a vida de JESUS, baseado nos quatro Evangelhos da Bíblia para dar de presente ao Chefe do Executivo na visita que pretendia fazer-lhe. Na sala da secretária, antes de qualquer outro assunto, ela me disse, como uma espécie de gravação, repetida durante o dia a todos que lá chegavam, a clássica frase: “Ele não vai poder recebê-lo agora, porque está numa importante reunião”. Sem pressa, respondi-lhe que aguardaria o tempo que fosse necessário E ali permaneci por muito tempo: meia hora, uma, duas, até quase três horas. Diante da minha insistência e, talvez porque a sala do Prefeito não tivesse outra porta de emergência, ele teve que sair por onde eu estava: “Ah! É você Luiz?! Pode entrar.” Ao que lhe respondi: “Não é necessário. Não quero tomar-lhe o tempo; eu não vim aqui para pedir nada, absolutamente nada. Nem aumento de salário, porque isso eu faria ao Presidente da Câmara com o qual eu tenho contato direto. A minha presença é unicamente para visitá-lo mesmo e entregar-lhe um presente.” Feito isto ali mesmo na antessala e já realizado o meu duplo objetivo (a entrega do livro e a conclusão do teste de amizade), depois da despedida, retirei-me.
Confesso que fiquei triste, profundamente triste, pelo atendimento – que na verdade não existiu, mas deu para avaliar o teste - e concluir que, na política, mesmo que um dos supostos amigos não faça parte de nenhuma facção partidária e não tenha o menor interesse em nada, a amizade não existe!…

