O marketeiro Serra

Por Elioenai Piovezan - jornalista e professor
A oposição tucana no Congresso, principalmente, no Senado, e setores da grande mídia brasileira – que possuem um discurso afinado com a primeira – fazem coro afirmando que o presidente Lula e aliados blindaram a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, desviando qualquer holofote maldoso que insistem em apontar para a estadista.
Julgando pela enxurrada de notícias, reportagens, editoriais, artigos, cartas de leitores (selecionados), colunas, charges e comentários gerais que abordam de forma pejorativa a ministra Dilma, temos que reconhecer que a verdadeira blindagem ocorre aqui mesmo em São Paulo, com o tratamento dado ao governador José Serra.
Ora, será que não existe nada pairando sobre o governo do Estado que não mereça pelo menos questionamentos? A imprensa letárgica para assuntos tucanos pisa em ovos para tecer-lhe críticas. A instalação de pedágios nos acessos ao Rodoanel Mário Covas e agora na rodovia Castello Branco são encarados com indiferença. A situação de inoperância da segurança pública; a oposição na Assembleia Legislativa paulista; o ataque frontal à escola pública e ao funcionalismo público, com política de gratificações e bonificações. Nada disso vem à tona.
Nesta semana, 26 de agosto, a programação da TV Cultura (emissora mantida com dinheiro público) foi interrompida três vezes para mostrar Serra discursando na inauguração da Universidade Virtual do Estado de São Paulo. Cinicamente, ele disse após o evento a alguns jornalistas: “Por favor, não me venham escrever de novo que isso aqui é um lance para a campanha presidencial”.
Blindado, o marketeiro Serra tem uma agenda que inclui visitas a outros Estados, principalmente no Nordeste onde a sua popularidade é menor. Do lado oposto, tudo aquilo que se poupa a Serra, a mídia descarrega gratuitamente (e de maneira maldosa) sobre Dilma. Será que estou enxergando demais?
Se não for isso, o que me diz o leitor sobre um projeto que o governo Serra chama de o “Novo Plano de Carreira” do Magistério, que, segundo anunciado, pode elevar o salário do professor até cerca de 8 mil reais? A primeira impressão é: “Nossa, finalmente o professor está sendo valorizado!”. Falácia, balela, lorota, lance de marketing.
Na verdade, o tal Novo Plano de Carreira (PLC 29/09), se aprovado, só beneficiaria até 20% dos professores efetivos, que atingissem a cada avaliação notas que vão aumentando numa escala de 6 a 10, que permanecessem por mais de dois anos na mesma escola e que não faltassem nem para gozar de direitos como licença-prêmio. Ou seja, o governo quer criar ilhas de “iluminados” (desrespeitando o princípio da isonomia) que continuarão convivendo com a triste realidade da Educação à sua volta: professores desestimulados, alunos mais ainda, escolas deficitárias, classes superlotadas, laboratórios de informática e química inexistentes, anfiteatros inexis-tentes, merenda para alunos do Ensino Médio inexistente…
O marketing é a arte de fazer um produto parecer bom, mesmo que não seja. Até aqui, a grande mídia, somado ao discurso publicitário, tem prestado esse excelente serviço de blindagem ao governador. Só resta saber até quando…

