O presidente pescador

Luiz Sanches
Eu não posso me queixar do tempo em que trabalhei na Câmara e fui seu “Fiel Escudeiro”. Afinal, apesar de algumas vezes sofrer perseguições e ser ameaçado de processos administrativos por parte de alguns presidentes, houve outros com os quais mantive ótimos relacionamentos e, mesmo depois de seus mandatos concluídos, tornaram-se grandes amigos meu; vejam só: trabalhei com um deles que, até pescar, me ensinou! Pescar de todas as formas, peixes e piranhas, porque ambas, evidentemente, de uma maneira ou de outra se come… Pois há um período na vida, principalmente na juventude, em que “com qualquer paixão se diverte” e a piranha, apesar dos transtornos que possa nos causar na vida “pelo excesso de espinhos”, acaba se tornando um bom prato! Eu me lembro que atravessava uma ótima fase, no mais amplo sentido, só que desta vez, como vão observar, eu “pisei na bola” com o meu amigo Presidente!
Eu não vou descrevê-lo com todos os detalhes, pois, como já notaram (os que, inadvertidamente, tem acompanhado o meu trabalho), o importante é contar os milagres sem identificar o santo: este presidente foi um dos melhores oradores que passaram pela Câmara. Como lia e escrevia muito bem, ocupou o cargo de secretário várias vezes, mas presidente mesmo só foi uma, embora tenha concorrido para o cargo em várias eleições da Mesa. Bom papo, bom pescador! Muitas vezes estivemos juntos em Ibiúna, Cerquilho, Laranjal Paulista e até em Angatuba no Rio Paranapa-nema, já que naquele tempo, aqui por perto, não existiam tantos pesqueiros, que só vieram a ser criados em tempos mais recentes. Com ele, nessas viagens periódicas, não só cheguei aprender as técnicas mais sutis como também as manhas mais simples da pescaria…
Até aí, tudo bem, quando então entra o outro lado da estória: numa tarde, já em final de expediente, ele aparece na Secretaria da Câmara com duas pretendentes a uma noitada de amor… Caramba!… Eu não esperava tanto, nem imaginava que o nosso relacionamento de amizade tivesse atingido um nível assim tão elevado que o fizesse agir daquela forma. Mas, o pior de tudo, para infelicidade dele e um pouco de tristeza minha, é que, exatamente naquele mesmo instante, a minha esposa também se encontrava na Câmara, aguardando o final do Expediente para, em minha companhia, fazer algumas compras no mercado ao lado! Reflexo rápido, ação imediata: o Presidente trouxera as duas honradas e respeitáveis munícipes para preencher os formulários do Título de Eleitor. E, com isso, o programa foi frustrado.
Soube no outro dia, contado por ele mesmo, que com as duas nada pode fazer, a não ser jantar num restaurante de uma cidade vizinha e, depois, voltar para a casa, todos os três num comportamento impecável!
E, mais uma vez, o Presidente demonstrou sua exímia habilidade de pescador; mas por falta de uma simples estratégia (e porque não dizer de uma imperdoável falha minha) pelo menos naquela noite não teve condições de abocanhar a presa…

