O falso empresário

Luiz Sanches - professor e ex-funcionário da Câmara de Itapevi

Luiz Sanches - professor e ex-funcionário da Câmara de Itapevi

O Delegado de Polícia era bom, muito bom mesmo, mas não precisava exagerar tanto a ponto de chegar ao extremo de humilhar o Vereador. “Tá certo” que a prisão do Presidente da Câmara, tema de uma das crônicas anteriores, teve um motivo justo, porque não havia necessidade de o político, considerado a segunda autoridade do Município, chamá-lo publicamente de “careca, arbitrário e f.da p”. Bastava, como é feito entre as pessoas civilizadas, principalmente das que ocupam cargos públicos, realizar uma reunião com a presença de todos os envolvidos para esclarecimentos e até, vamos dizer assim, “lavar a roupa suja”. Porém, no caso de hoje, ele não só chegou ao extremo, como também passou dos limites…

Era correto identificar as pessoas que freqüentavam os estabelecimentos comerciais em horários avançados da noite, só que para alguns ele pedia qualquer documento de identidade, para outros, a Carteira Profissional, mas quando sua desconfiança era grande e o seu faro aguçado de policial assim o exigia, ele queria mesmo era ver a carteira profissional com um registro de trabalho. Assim também já era demais!

Nesse tempo, há mais de três décadas, os vereadores não recebiam nada pelo cargo e, para sobreviver, ou tinha que ser empresário ou tinha que trabalhar. Na verdade, isto não acontecia com todos, pois existia um ou outro que não se enquadrava em nenhuma dessas categorias e foi exatamente aí que a coisa acabou se complicando e ficou feia para um deles. Numa de suas costumeiras “blitz”, o Delegado, ao abordar um vereador que fazia parte de um grupo dentro de um bar, pediu-lhe a carteira profissional. Face a inexistência de um contrato de trabalho em suas páginas, porque, na realidade, o vereador não trabalhava, dizendo-se empresário, o Delegado deu-lhe um prazo de setenta e duas horas, o equivalente a três dias, para apresentar o contrato da sua Empresa. E daí?

Vencido o prazo e temendo uma represália maior por parte do Delegado, o Vereador compareceu à Delegacia com uma cópia de contrato no qual o seu nome aparecia como sócio de uma olaria (pequena fábrica de telhas e tijolos das muitas que surgiam na época para atender à demanda das construções de casas e alojamentos no Município em crescimento). O Delegado compenetrado, muito sério, examinou o documento (talvez, interiormente rindo e pensando: “vou fazer de conta que acredito”) e disse em tom extremamente autoritário: “Está bem, pode continuar sua nobre missão de trabalhar pelo povo – isso, sem dúvida, já é um grande mérito - mas, pelo menos, procure registrar esse contrato, uma exigência legal para sua validade. Depois eu vou verificar com o outro proprietário, seu sócio na olaria, a existência real da sociedade”.

Nessa olaria que funcionava no Jardim Portela, bem próxima à casa em que eu morava, o Delegado nunca apareceu e jamais teve qualquer interesse em confirmar se o vereador tinha ou não qualquer tipo de sociedade com aquela pequena empresa. Seu objetivo principal (e que certamente foi alcançado) era de, ao desmascarar o falso empresário, pregar um grande susto ao vereador…

 

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