A aventura de ler e a desventura de assistir

Por Elioenai Piovezan - jornalista e professor

Por Elioenai Piovezan - jornalista e professor

Alguém já disse que a literatura nos transporta para outros mundos. Sim, para o mundo de imaginação do escritor com o qual compartilhamos visões, sentimentos e ideias. Particularmente, não me canso de ler e gostaria que todos fossem contagiados por esse “mal”, como numa pandemia.

Nos últimos meses, matei algumas curiosidades literárias. Li “Drácula” (1897), de Bram Stoker, e procurei semelhanças com o filme adaptado de Francis Ford Coppola. Infelizmente, o que mais me atraiu no filme não estava no livro: o amor secular do conde por Mina Murray, que o deixa dividido entre dar-lhe a imortalidade, tornando-a um vampiro, ou esquecê-la de vez. A história do livro não possui um narrador propriamente dito. A narrativa é estruturada em diários pessoais, anotações e notícias de jornais da época. Sendo assim, não existe o ponto de vista do conde Drácula, pois ele não escreve.

Antes de “Drácula”, havia lido “Viagem ao Centro da Terra” (1864), de Julio Verne. O livro é cheio de descrições precisas e nomenclaturas da geologia da época e o professor Lidenbrock quer provar na prática a teoria de que o Centro da Terra é oco. Obviamente, a aventura adaptada aos cinemas é puro entretenimento, centrando o enredo mais na ação do que nos dados científicos.

Li (ou reli) também as “Primeiras Estórias” (1962), de João Guimarães Rosa. Assim como nunca cruzamos duas vezes o mesmo rio (pois as águas nunca são as mesmas), li Guimarães com outros olhos e outra compreensão. Encantei-me com cada minienredo e com cada um de seus personagens tão humanos, carregados de uma visão tão universal. Destaco a simplicidade do conto “Substância”, que narra a história de Sionésio, fazendeiro que se apaixona por Maria Exita, moça que fora abandonada pela família e trabalha na fazenda. Com forte psicologismo, pois a história toda se passa dentro da cabeça do fazendeiro, ele atropela qualquer preconceito de seus parentes ou vizinhos e decide declarar o seu amor à jovem:

Sionésio e Maria Exita – a meios-olhos, perante o refulgir, o todo branco. Acontecia o não-fato, o não-tempo, silêncio em sua imaginação. Só o um-e-outra, um em-si-juntos, o viver em ponto sem parar, coraçãomente: pensamento, pensamor. Alvor. Avançam, parados, dentro da luz, como se fosse no dia de Todos os Pássaros.

Nenhum cineasta no mundo seria capaz de traduzir essa cena final do conto para as telonas. É a linguagem própria da escrita, o seu falar com tiro à queima-roupa com sintaxe original e seus regionalismos.

Assim, a literatura alimenta a imaginação e nos faz refletir, sonhar, reler e combinar frases e ideias. Já o cinema nos alimenta com a imaginação do diretor, ficando a reflexão para um segundo plano.

No cinema é “luz, câmera, ação!”. Na literatura é “luz, olhos, mergulho!”.

O mundo das palavras é inesgotável e sempre um desafio. E é esse desafio que faço a você: escolhe um livro e “penetra no mundo das palavras”. Depois, compare-o com um filme… Você vai perceber que a leitura de uma obra literária é muito mais prazerosa do que uma simples distração que impera na maioria dos filmes de hoje.

 

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