Uma grande jogada

Luiz Sanches

Luiz Sanches

Uma hora antes da sessão, o livro de presença era colocado aberto sobre a mesa da presidência, já com o cabeçalho e as onze linhas numeradas (o número total dos vereadores) para que cada um, à medida que fosse chegando, registrasse sua presença. Um fato estranho chamava a atenção: um deles, embora comparecesse bem mais cedo, assinava em qualquer uma das linhas que estivesse entre a oitava e a décima primeira. Não era necessário ser um grande observador para entender o estranho procedimento do vereador, mas para isso foi preciso colher mais alguns fatos e analisá-los profundamente. E foi o que fiz!

Durante a sessão, após a discussão dos projetos, os vereadores declaram a sua decisão – favoráveis ou contrários - por meio de votações. Há duas formas de votar: a primeira, chamada simbólica, é utilizada para os projetos mais comuns e corriqueiros, quando o Presidente, depois de lida a matéria, consulta a Casa e, não existindo nenhuma impugnação, a considera aprovada; a segunda, chamada nominal (bem mais complexa) é utilizada para os assuntos mais polêmicos, projetos de grandes obras, aqueles que dependem de um debate mais amplo, incluindo entre eles a cassação de parlamentar e até do próprio prefeito. Este último processo de votação era feito por meio do livro de presença pelo Secretário que fazia a chamada de cada vereador o qual, ao se levantar, declarava o voto, “sim” ou “não”. Concluída a votação, o Presidente anunciava então o resultado. Como naquele tempo, num Legislativo ainda engatinhando em seu aprendizado, não se conhecia ainda o processo de reuniões antecipadas que seria hoje o que se chamam de “consenso”, um estudo antecipado do assunto sobre o que a maioria deve fazer, a decisão final ficava mesmo por conta do que seria deliberado na Câmara em que cada um votava de acordo com o que melhor lhe conviesse. Entre onze vereadores, colocar o nome nas últimas linhas criava uma grande possibilidade para maiores reflexões: ao chegar a vez de votar, praticamente a matéria já tinha sido aprovada ou rejeitada, cabendo a esse privilegiado parlamentar decidir pelo lado que deveria tomar e que melhor viesse ao encontro dos seus interesses políticos!

Porém, essa estratégia durou pouco. Por determinação da Presidência, a assinatura dos vereadores passou a ser feita em uma relação já impressa com o nome de todos em rigorosa ordem alfabética, o que veio prejudicar sensivelmente esse vereador, já que o seu nome se iniciava com uma das primeiras letras….

É evidente que, comparado com as grandes manobras atuais da política federal, este fato passa a ser extremamente insignificante. Mas se levarmos em consideração a época, o baixo nível de escolaridade de boa parte dos integrantes do Legislativo com todos eles ainda na fase do aprendizado, pode ser considerado “uma grande jogada”.

 

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