A água nossa de cada dia

Por Elioenai Piovezan - jornalista e professor

Por Elioenai Piovezan - jornalista e professor

“A água que bebemos e usamos para tomar banho é a mesma que os dinossauros beberam e com a qual se banharam há milhões de anos”. O espanto dos alunos é geral. “É isso mesmo – prosseguiu o professor –, a água é um bem natural que se renova desde a formação do nosso planeta. Ela se perpetua no chamado ciclo hídrico em que lagos, rios e oceanos evaporam, tornando-se nuvens e voltando para o ceio da terra em forma de chuva”. “Então, por que às vezes falta água? Por que dizem que ela vai acabar?”

As perguntas pipocavam, o grau de interesse dos alunos crescia à medida que o professor instigava a curiosidade e utilizava exemplos bem significativos para a vida de cada um. “Olhe a camiseta que você está usando? É feita de quê?”, quis saber o mestre. “De algodão, professor”. “Sabe quanta água há nela?”. Todos riram da afirmação – não é possível, o professor pirou de vez! “E você aí no fundo, brincando com o celular, sabe quanta água há num microchip de 2 gramas? As duas aí perto da janela, retocando a maquiagem, sabe quanta água há num bife de carne bovina de 150 gramas?”. De repente, todos silenciaram. Até os mais apáticos, indiferentes e conversadores voltaram a atenção naquele senhor simpático e provocador. Como a água podia estar presente em tudo?

O professor, calmamente, percebendo o grande interesse da sala – coisa rara nos dias de hoje –, pôs-se a explanar. “Antes de responder a essas questões, vou fazer outra: quem sabe o que é ‘virtual’?”. Um aficionado por filmes devolveu: “No filme Matrix, os seres humanos vivem num mundo virtual mantido pelas máquinas, na verdade tudo se passa na mente das pessoas que está conectada a um super computador…”. Outro aluno dispara: “A ministra Dilma é a virtual candidata a presidenta do PT, virtual porque é uma possibilidade bem concreta..”

O professor coçou o queixo com o dedo indicador e, sem esconder a satisfação com aquelas respostas, continuou: “Muito bem, assim como existe a água real existe também a água virtual, que é a quantidade de água usada, direta ou indiretamente, na produção de algo. Assim, na camiseta de algodão do Toninho existem 2 mil litros de água; no microchip do celular do Fábio tem 32 litros; e no bife da Ana e da Carla (alguns riem do duplo sentido da frase) há 2.235 litros de água. Toda essa água foi utilizada ou para irrigar a plantação de algodão, ou para fabricar componentes eletrônicos ou para produzir a ração que alimenta o gado. A água está em tudo!”

Lá no fundo da sala, Gustavo, que ouvia a tudo atentamente, pensou: “Antes ficasse no mundo das sombras, confortavelmente, sem preocupações adultas. Mas agora que eu entendi que a água é tão importante para produzir coisas, sinto que num futuro próximo ela será motivo de disputa e até de guerra, assim como foi com o petróleo…”

Bate o sinal, os alunos saem para o intervalo. O professor observa que Gustavo ficou angustiado. “Que foi?”. “Nada, só gostaria que essa água virtual que o senhor falou matasse a sede do pessoal lá do Nordeste, da África…”. O mestre sorriu, colocando a mão no ombro do aluno: “Não se preocupe, meu jovem, o primeiro passo é compreender, o segundo, é tentar mudar. Então, vamos caminhar um pouco”. E deixaram a sala de aula.

 

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