| Ayrton Correa
VAMOS
BUSCAR LENHA!
Era assim mesmo que a gente falava: "buscar lenha".
Ou "catar lenha". O significado, no entanto, era o mesmo. Todos
entendiam que se tratava de ir até o calipal atrás do frigorífico
e de lá trazer galhos secos para abastecer o fogão.
A casa era pequena. Terreiro de chão batido. Casa de duas águas,
com janelas e portas verdes. Telhado sem forro, deixando à mostra
o madeiramento. Na cozinha, a mesa, quatro cadeiras, um pequeno armário
e um fogão à lenha era toda a mobília daquele dos
três cômodos da casa. Desde portas e janelas até grande
parte dos móveis, era tudo feito em casa mesmo. Aproveitava-se
de tudo. Tábuas de caixote e sobras de madeiras.
A chaminé, desde cedo, soltava um fio fino de fumaça. Fogão
à lenha fica aceso o dia inteiro. Fogo fraco e que aumenta nas
horas de preparar as refeições. Na chapa, o bule com o café
para fazer boca de pito ou oferecer à visita surpresa.
Ao lado da porta da cozinha, o pilão. Onde se fazia paçoca
de amendoim e farofa de carne-seca. O pé de limão-caipira,
ou limão-fogo, ou limão-rosa enfeitava o quintal. Na frente
da porta da cozinha, o poço. Água tirada com o balde puxado
pela corda. Sarilho de madeira. Feito em casa, também.
Na frente da pequena construção, uma área também
pequena, com algumas plantas penduradas na parede. No quintal, perto do
portão, os "boques", buracos para o jogo de bolinhas
de vidro. Atrás da casa, uma pequena horta, um pé de mamão,
outro de laranja e mais um outro de mexerica e um galinheiro. Nada muito
organizado.
No canto do quintal, perto da cerca de arame farpado, o mastro com os
santos juninos. Santo Antonio, São João e São Pedro.
Atravessam o ano em meio a sol e chuva. Chegavam desbotados no junho seguinte.
Mas chegavam.
Ali também, naquele pequeno pedaço de chão, perto
do poço, perto da porta da cozinha, perto do limoeiro, e perto
do mastro era feita a fogueira. Aliás, as fogueiras para os três
santos do mês. Com direito a rojão. Rojão de vara.
Bambu, barbante e varetas cortadas no mato. Montagem caseira. Por quem
entendia do ofício.
Era ali, naquele cenário que, ao cair da tarde a criançada
se reunia, preparando-se para mais um vez "buscar lenha". Lenha
para o fogão. Fogão feito de tijolos, com acabamento em
vermelhão, uma espécie de tinta misturada à massa
fina de cimento.
Todos preparados. Corda para amarrar a lenha, faca ou foice para cortar
os galhos e uma "rodia", para proteger os ombros ou cabeça.
E o grupo seguia em direção ao calipal. Ir era fácil.
Difícil era voltar com o peso do feixe de lenha. Mas voltavam todos.
Cansados e contentes pelo dever cumprido. E, quase que ao mesmo tempo,
deixavam cair a carga no chão. Em frente à porta da cozinha.
Parte de lenha ia para debaixo do fogão e parte ficava guardada
em algum lugar protegido de chuva.
Esta era a casa da Vó Zefa, do João da Bota, da Ana e do
Pedrão. Poderia ser, no entanto, qualquer uma das casas da vila.
Casas, em sua maioria de duas águas, quintais fechados com arame
farpado, a horta, o pomar desorganizado, o galinheiro, o mastro com as
bandeiras, o fogão a lenha, a lamparina, a família.
Parecidas no formado. Iguais na rotina. Felizes...
Ayrton Corrêa é aposentado e reside em São Paulo. Morou
30 anos em Itapevi. E-mail: ayco@superig.com.br.
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