Geraldo Pereira

Comentários a propósito
de uma observação

Estou a poucos meses residindo na cidade de Americana, gosto da cidade, seu povo, das suas ruas, e, principalmente, das bicas instaladas há anos pela prefeitura, a fim de que ricos e pobres possam gozar do privilégio de beberem uma água de boa qualidade.
Outro dia, no lançamento do projeto "Para Estudar não tem Idade", cujo objetivo é trazer para sala de aula aquele trabalhador que não teve oportunidade de continuar seus estudos ou que nunca frequentou uma sala de aula, incentivado pelos Sindicatos em parceria com a Secretaria de Educação, a oportunidade de estudar História Política e Sindical, esse é um velho sonho meu que graças a Deus se tornou realidade, e tive a oportunidade de acentuar na solenidade que Americana é a primeira cidade do Brasil a ensinar aos alunos de supletivo inicialmente essas duas matérias, tão importantes para uma boa formação.
Nesse sentido minhas congratulações ao Secretário de Educação, essa figura simpática que é o nosso estimado amigo Herb Carlini e também o prefeito Erich Hetzl Júnior.
Ocupado em registrar a solenidade, deixei a máquina apenas no momento em que fui chamado para falar. Acostumado com a tribuna, meu pão de cada dia, fui traído pelo esquecimento e não tracei um itnerário para minha intervenção, pois estava desde o primeiro instante ocupado com a filmagem.
Iniciei dizendo a imensa satisfação de ver um projeto acalentado durante cinco décadas, ser vitorioso. Tracei um perfil rápido da nossa atuação no campo político e sindical do nosso País, iniciado em 1945, mas já anterior se contarmos a luta contra a ditadura de Getúlio e também a campanha para fazer com que o ditador cortasse relações com a Alemanha Nazista de Hitler e a Itália fascista de Mussoline, e, enviasse aos campos de batalha da Europa nossas batalhões para combater aqueles que queriam liquidar com a democracia.
Nossa instervenção não foi filmada. Também não foi gravada. Mas tenho absoluta convicção... fechei o discurso na parte que sempre julguei de máxima importância histórica e moral, pois sempre me refiro ao político Getúlio Vargas, o faço com certa indignação e paradoxalmente com grande admiração, pois, para aqueles que não tiverem tempo para estudar a atribulada existência desse político brasileiro, não sabem, mas precisam saber que Getúlio Dorneles Vargas foi uma figura múltipla.São tantos os Getúlios dentro da personalidade de Vargas, que, o orador precisa estar muito atento quando falar sobre ele, mormente de improviso ( não sei falar de outra maneira).
Chamou-me a atenção, meio decepcionado,meu estimado Herb, afirmando que "meti o pau na ditadura de Getúlio, mas não falei na ditadura militar. Elogiou o General que escreveu as mais belas páginas da História das Forças Armadas".
A crítica do Herbprocede em parte. É em homenagem a ele a observação que recebo com uma deferência especial (prova de que o orador foi ouvido atentamente) observação que me leva a fazer esses comentários:
1- Para enviar os contingentes militares aos campos de batalha da Europa, o povo foi às ruas, em diversas cidades do Brasil, exigindo do Ditador o embarque de nossas tropas. A revolta em todo o país contra os Alemães, era geral, mormente no nordeste, onde nosso navio de passageiros, tinham sido postos a pique em águas brasileiras, pelos submarinos alemães. Em 14 de fevereiro de 1942 era torpedeado o navio Cabedelo nas costas do Sergipe e no dia 23 o Campos. Ao todo perdermos 31 navios e 971 pessoas entre trabalhadores e passageiros, em navios indefesos e mercantes.
Esses navios foram torpedeados no período de 14 de feveriro de 1942 a 23 de outubro de 1943. O Brasil enviou tropas para combater os alemães em julho de 1944 e a sua participação foi até 28 de abril de 1945 com o fim da segunda grande guerra mundial.
2- Só a título de ilustração. Os estudantes exerceram uma influência notável, heróica, no sentido de pressionar o ditador a enviar os nossos batalhões. Para se ter uma idéia da grandiosidade dessa luta, Getúlio reuniu o seu ministério em 22 de agosto de 1942, para tomar uma atitude contra os alemães, mas, antes, os estudantes no Rio de Janeiro, tendo, a frente o presidente da recém formada UNE - União Nacional dos Estudantes - Luiz Paes Leme, tomou o luxuoso clube Germânia, clube dos alemães, situado na Praia do Flamengo, 132 e lá instalaram o Quartel General dos Estudantes contra contra a Quinta-Coluna do Brasil.
"Quinta-Coluna" era considerada, todos aqueles que admiravam e ajudavam os alemães com informações das mais diversas, incluindo a saída dos nossos navios e onde se encontravam.
3- No recife a batalha contra os alemães e japoneses foi imensa. Lembro-me como se fosse hoje. Tanto as casas comerciais quanto as residenciais forma tomadas de assalto e quebrados todos os seus mobiliários. A participanção e a revolta dos estudantes e dos trabalhadores era muito grande. Os donos das casas, presos, e só forma soltos anos após.
4- Apesar de estarmos numa ditadura, o governo se viu impotente para usar a força policial. Quando o povo quer, e bem dirigido, resolve o problema. Veja-se a situação da Bolívia, recentemente.
5- Prestei uma homenagem sentida ao grande comandante da Força Espedicionária Brasileira, por quem realmente tinha grande admiração, o General João Batista Mascarenhas de Morais. Não se tem notícias desse soldado metido em golpes. É bom não esquecermos que durante os trabalhos da eleboração da Carta Constitucional de 1946, foi outorgado a esse ilustre militar o título de Marechal do Exército Brasileiro, apoiado por todos os partidos.
6- Ele ajudou a escrever as mais belas páginas das nossas Forças Armadas, derrotando nos campos da Europa os nosso inimigos Alemães, italianos e japoneses, mas hoje essas nações derrotadas estão no Primeiro Mundo, e nós nesse fim de mundo. Nós os vitoriosos da Guerra. Essas realmente foram as mais belas páginas escritas pelas nossas Forças Armadas, em minha opinião. Com relação à gurilada que se apossou do Brasil, atrasando o seu progresso, prendendo, matando e torturando, essa sempre mereceu de mim a maior repulsa, inclusive prática.
7- Getúlio Vargas. Deixei de "fechar" a minha intervenção, escrevo as palavras que certamente diria, como tenho dito em diversas ocasiões, há diversos anos: Getúlio foi uma figura múltipla. Merece ser estudado sem paixão. Sobre ele tenho escrito e tenho estudado a mais de quatro décadas. Ví Getúlio algumas vezes. Apertei-lhe as mãos duas vezes. Foi o único parlamentar que não assinou a Constituição de 1946. Tenho um exemplar com todas as assinaturas, falta a dele.Governou o país de novembro de 1930 a outubro de 1945, sendo que de 1937 a 1945 como ditador. Volta a presidência da República em 1951, eleito que foi em 1950. Volta nos braços do povo e faz um governo nacionalista na acepção da palavra. É com ele que o Brasil dá os paços decisivos no caminho da sua industrialização. Os primeiros passos, foram dados em seu governo no período ditatorial, quando solicitou do presidente Rossevelt, que estava no brasil com a finalidade de pedir a permissão para uso das nossas bases militares, ajuda a fim de ser construída a primeira indústria de siderurgia do nosso País. Roosevelt demorou, não cumpriu, Getúlio ameaçou pedir ajuda aos nazistas. Aí a ajuda americana chegou e se fez a Companhia Siderurgica Nacional. Foi a CSN que realmente deu os primeiros passos no caminho do desenvolvimento industrial brasileiro.
8- Por se bater tanto em defesa da Pátria e dos seus interesses, foi levado ao suicídio, pelo capital interno e externo. Contra ele, estavam os donos da grande imprensa, tendo a frente Roberto Marinho com "O GLOBO" e Chateabriaud com os "DIÁRIOS ASSOCIADOS".
9- Dois meses antes de morrer, almoçando em residência do jornalista Barbosa Lima Sobrinho, que foi amigo de Getúlio, dizia-me aquele velho e saudos mestre "Geraldo, cada dia que se passa eu fico mais Getulista. Nenhum presidente defendeu mais o Brasil do que Getúlio". Concordei.
10- A Carteira Profissional deu ao trabalhador brasileiro a dignidade que ele não tinha e o respeito que ele merece. Os Institutos de Previdência, a Eletrobrás, Petrobrás, enfim, Getúlio foi um patriota, e também um homem de sua classe. Não queria fazer a revolução que tanto a Nação precisava e exigia e que ele tinha tudo para comandá-la. Foi um autêntico representante da burguesia e do latifúndio. Nem sequer tentou a reforma agrária.
Em termos morais o retrato que faço de Getúlio é simples, e muito expressivo. Getúlio serve de exemplo para a classe política brasileira. Governou o País por 19 anos. Esse homem morreu e deixou para dona Darcy duas fazendas, amabas herdadas do pai e com dívidas. Grandeza moral que os partidos e pessoas que seguem a sua linha deveriam manter, para guardar e resgatar a sua saudosa memória.

Geraldo Pereira, jornalista e membro do Sind.
dos Jornalistas de São Paulo e da ABI
(Assoc. Bras. de Imprensa)