| Ayrton Correa
HISTÓRIA
PRA CRIANÇA
Eu estava de passagem ali pelo Pólo Norte quando, de
repente, me vi à frente de uma casa. Pareceu-me uma casa. Olhando
direito, vi que se tratava de uma espécie de fábrica. Quase
que coberta pela neve, uma placa: "Oficina do Papai Noel". Um
pouco grande para uma oficina, pensei.
Já estava começando a me afastar quando fui convidado a
me aproximar. Na porta um homenzinho com um crachá onde se lia
"Ajudante do Papai Noel". Puxa, e eu que pensava que nada disso
existisse! E lá estava eu, ao vivo e em cores, naquele cenário
que até então só havia visto em livros.
Convidado a entrar, não vacilei. Lá dentro, a maior agitação.
Muitos trabalhadores apressados. Também, nessa época do
ano, não podia ser diferente.
Logo na entrada, em uma ala que me pareceu mais antiga, alguns brinquedos
em fase final de acabamento. Carrinhos de madeira e bonecas de pano. Tudo
feito à mão. No fim do corredor, uma porta separando a construção
mais antiga, de uma outra que me parecia ser mais moderna. Gostaria de
conhecer o outro lado, pensei com meus botões.
Foi como se eu tivesse falado em voz alta. O ajudante que me acompanhava
convidou-me a conhecer o que chamou de fábrica de brinquedos. Isso
mesmo, fábrica, e não oficina. Enquanto caminhávamos,
ele foi dando algumas explicações.
Disse que a oficina antiga já não tinha tanto trabalho.
Que Papai Noel, nos últimos tempo fizera grandes investimentos
para atender ao aumento de pedidos que passou a receber. Precisou ampliar
a construção e modernizar seus equipamentos. Que é
cada vez mais raro alguém pedir carrinhos de madeira e bonecas
de pano.
Atravessamos a porta e entramos num enorme galpão. Muito bem limpinho
e iluminado. Muitas máquinas e poucas pessoas. As placas indicavam
o que se fazia em cada uma das seções. Videogames, microcomputadores,
CDs de jogos eletrônicos, brinquedos com controle remoto, aparelhos
de som e muitos outros.
Explicou-me, o ajudante, que tudo aquilo era acompanhado e controlado
por um computador central que cuidava da programação e da
produção dos presentes que o Papai Noel distribuiria no
Natal. Que o bom velhinho já não supervisionava diretamente
seus ajudantes. Tinha um responsável para cada departamento. Coisas
de empresa grande.
Enquanto ele falava, minha atenção foi desviada para uma
sala confortável onde algumas pessoas me pareceram muito ocupadas.
Mais explicação. Eram cientistas e vinham merecendo quase
que toda a atenção do Papai Noel. Estavam desenvolvendo
fórmulas para que a fábrica conseguisse atender aos pedidos
que vinha recebendo ultimamente. Pedidos diferentes e que a pequena oficina
nunca pensara em receber. Pedidos que somente poderiam ser atendidos se
aquele grupo descobrisse uma poção mágica. Mágica
e muito forte.
Entramos. Mostraram-me a lista dos pedidos diferentes. Paz para o mundo,
oportunidades de emprego, escola para as crianças, respeito aos
idosos, moradia, combate à fome, preservação da natureza,
fim da violência, cura para as doenças, etc, etc, etc...
Era uma lista enorme.
Realmente aquele grupo tem uma tarefa muito difícil pela frente.
Saí da fábrica bastante apreensivo. Se o homenzinho não
me chama a atenção, eu nem teria visto o grupo de ajudantes
que, apressados, já começavam a carregar de presentes o
avião particular do Papai Noel.
Ayrton Corrêa é aposentado e reside em São Paulo. Morou
30 anos em Itapevi. E-mail: ayco@superig.com.br.
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