| Geraldo
Pereira
Libertem
o presidente operário
Há poucos dias num evento sindical, perguntavam-me alguns
companheiros sindicalistas o que eu achava do governo Lula e que nota
daria para o seu governo. "SIN-CE-RA-MEN-TE!", exclamava um
deles. Respondi de maneira pouco amistosa, até mesmo um pouco grosseiro,
pois, não gostei da impostação da voz que acompanhava
o SIN-CE-RA-MEN-TE, como pergunta.
Como era um evento promovido pelos admiradores da CUT e do presidente
operário e, como aquelas mesmas pessoas estavam se revesando em
perguntas capciosas - algumas delas -, fui obrigado a falar de mim, coisa
que não costumo fazer em palestras ou debates de cunho político,
cultural ou sindical - principalmente. Nos meus mais de 70 anos vividos,
graças a Deus, conservo-me até hoje com o mesmo vigor, na
luta que espontaneamente cotra o capitalismo. O combati de maneira mais
violenta possível e mais cruel, não lhe dando a liberdade
de explorar a força de meu trabalho - nunca fui empregado dele!
Se dependesse de mim ele não viveria.
Tem sido uma luta braba, uma luta de foice, que, ainda hoje exige de mim
matar um leão todos os dias para conservar-me de pé, com
dignidade, sem ceder nas coisas do espírito e da inteligência,
e, principalmente, nas questões de princípios políticos
e morais.
Bem sei, sinto na própria pele quanto é difícil e
complicado manter uma atitude serena e convicta com relação
à verdade. A verdade sem retoques, sem sofisma. Aquela verdade
que o caboclo nordestino - muitos deles analfabetos - lá do sertão
pernanbucano, e que na sua ignorância - santa e sábia ignorância
- afirmava, e eu criança ouvia com tanta admiração:
"Eu conto o caso como o caso foi. Para mim, o homem é o homem
e o boi é o boi".
Nunca fiz qualquer palestra, debate, conferência ou curso, com o
objetivo de agradar a quem quer que seja. A esta ou aquela entidade, a
este ou aquele partido. Nunca tive o interesse de desfrutar de prestígio,
cargo ou simplesmente "abrir caminho" a fim de ter mercado para
as minhas atividades e ganhar dinheiro.
Isto tem me custado caro. De quando em quando, sinto as portas se fecharem
para mim com tal rapidez, que rever os vídeos ou as gravações
para me conscientizar de que não extrapolei nos assuntos focalizados
por mim, uma vez que não costumo ler as minhas palestras.
Em verdade, culpo ao mestre João Mangabeira, grande jurista, fundador
do PSB (Partido Socialista Brasileiro) pela influência que seus
escritos exerceram em minha vida profissional. Este brasileiro insígne,
filho da terra que viu nascer um Castro Alves, um Rui Barbosa (sua grande
paixão), um Anísio Teixeira, um Carlos Marighella, um Jorge
Amado, deu-me uma grande lição. Lição sempre
presente em minha vida, responsável pela minha declarada guerra
ao capitalismo.
"No sistema econômico atual, capital e trabalho, representados
por homens legalmente livres, unem-se para a consecução
de um bem comum - a produção. E quando duas forças
como - capital e trabalho - ou dois homens livres - operário e
patrão - colaboram numa mesma empresa, aliam-se para um resultado
comum, que é o produto do concurso de ambos, a figura política
desta co-participação de energias deve ser a da sociedade
e nunca a da locação". Continuava Mestre Mangabeira:
" A locação do trabalho não passa de uma forma
larvada de escravidão. Debalde os códigos individualistas,
como o nosso, procuram iludir esta evidência, limitando o prazo
do contrato, e, cuidando assim, impedir que, mediante locação
por toda vida, o homem se torne escravo do outro".
Daí a plena liberdade para opinar sobre o governo Lula, no reduto
dos seus amigos. A nota que dou ao presidente operário, se a máxima
for 5, dou-lhe 2,5. Nem mais, nem menos. E justifico. Esperava os partidos
da direita e também a grande imprensa (venal imprensa) que o presidente
operário colocasse em prática o discurso que há mais
de década vinha fazendo. O que seria uma loucura. Hoje estaríamos
em que situação?
Com um povo despolitizado como o nosso, com a imprensa escrita, falada
e televizada, no bolso do capitalismo interno e principalmente externo,
com a terrível lavagem cerebral que é dada aos homens e
mulheres do Brasil, obrigando-os inconscientemente a só discutirem
o supérfluo, só se reunindo para as coisas sem importância,
tenho dúvidas se não estaríamos bem pior do que estamos.
O presidente operário está deslumbrado com o Poder, esse
é um fato incontestável. Viajando em demasia, às
vezes fico pensando se o pessoal do Planalto não deseja vê-lo
pelas costas. Companheiro Lula, dá uma paradinha. Criticamos tanto
o FHC!
O que me preucupa profundamente no governo do presidente operário
são os elogios diários estampados na chamada grande imprensa.
Elogios internos e externos. Estou absolutamente convicto de que o presidente
operário tem feito por merecê-los, e, quanto mais vai fazendo
mais dele será exigido.
As grandes cabeças, os famosos PHs, sabem - como sábios
que são - quais são os caminhos que devem trilhar para conseguirem
cada vez mais do presidente operário, embora - muito embora - que
para isso, o quadro da fome, do desemprego e da miséria se acentuem
para nossa infelicidade. O que não era esperado. Com o qual não
concordamos absolutamente!
Quando o secretário do tesouro dos Estados Unidos, Raldal Quarles,
afirma que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva cumpriu as suas
metas de controle dos gastos públicos e da inflação,
de restaurar a confiança no mercado e promover as reformas fiscal
e tributária, para ele, isso permitirá a volta de um crescimento
econômico em breve, o que permitirá a Lula cumprir suas promessas
de redução da pobreza". O presidente Lula tem mostrado
que responsabilidade fiscal não é apenas consistente com
responsabilidade social, mas uma parte essencial dela".
Os elogios com relação aos compromissos assumidos pleo governo
apátrida de FHC e que estão sendo cumpridos rigorosamente
pelo governo Lula, como castigo ao povo que o elegeu, é realmente
uma profunda decepção para todos nós que pensamos
com inteligência. Aí estão os preços administrados
pelo governo. Que nada mudou, tudo igual ao governo FHC.
A ministra das Minas e Energia, assim como o Ministro das Comunicações
e o presidente da Petrobrás, entusiasmados, logo que assumiram,
afirmavam que os preços da energia, dos serviços telefônicos,
assim como o dos combustíveis e do butijão de gás,
iriam baixar consideravelmente.
Ficamos aguardando, e o que vimos foi o ministro Palocci entrar em cena,
afirmando que o mercado estava nervoso. Logo, o mercado reagiu e o que
vimos foi o aumento assustador do telefone,da conta de luz, e do gás
de cozinha e demais combustíveis.
O mercado, o capitalismo, não tem compromissos com a nossa pátria,
com o nosso povo. Sabemos nós, sabe o presidente Lula, que é
preciso enfrentar essa chantagem produzida e bem produzido pelos PHs.
Se mexer em favor da pátria, se mexer em favor do povo, logo o
mercado fica nervoso, o risco Brasil sobe, a bolsa despenca, uma sacanagem
sem limites. E nós prisioneiros dessa gangue. É preciso
enfretá-los. E quanto mais tempo demorar, pior.
Aguardar no seu devido tempo o crescimento econômico para reduzir
a pobreza. Foi com esse filme que FHC e Malan enganaram a Nação
por oito anos. Para o capitalismo, os problemas dos povos do terceiro
mundo, as soluções estão no futuro, longínquo
ou bem próximo. Enquanto isso, eles vão nos roubando. Não
precisamos ir muito longe: a Petrobrás, empresa pela qual lutei
com unhas e dentes, preso diversas vezez na luta (na campanha do petróleo
é nosso), teve um lucro, está tendo um lucro superior a
bilhões, e os brasileiros, pagando uma gasolina caríssima,
um gás, idem e o óleo diesel no Brasil tem um preço
11,9 superior ao do mercado internacional, o que levou o prefeito de Salvador,
Antônio Imbassahy (PFL) a exigir da União a redução
do seu valor para as grandes cidades. As ações da Petrobrás
estão no mercado, se baixar os preços da gasolina, do óleo
ou do gás, elas caem e os acionistas ganham menos. Como é
possível uma sacanagem desse tamanho contra o povo pobre e trabalhador
de no nossa Pátria!
Onde estão as centrais, onde estão os sindicatos, o movimento
sindical que não enxerga essas coisas, que afetam o dia-a-dia do
trabalhador brasileiro? Não seria um bom motivo para o movimento
sindical averiguar a denúncia do prefeito da capital da Bahia e,
caso positivo, colocar a boca no trombone?
Venho de uma época em que o movimento sindical estava presente
contra a carestia. Por que não reativá-lo? Por que não
levar os trabalhadores para as praças públicas na luta contra
essas injustiças, essas crueldades?
Estou plenamente convicto de que seria a melhor maneira de ajudar o presindente
operário a pressionar o capital externo, donos das bolsas e dos
mercados. Não podemos viver a mentira, a farsa, o engodo. Não
vamos enganar o presidente operário, nem deixá-lo entregue
às forças da direita e do capitalismo. Libertemos o presidente
enquanto é tempo.
Geraldo Pereira, jornalista e membro do Sind.
dos Jornalistas de São Paulo e da ABI
(Assoc. Bras. de Imprensa)
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