Contando História
Ayrton Correa

VALE A LEMBRANÇA

- Boa tarde! Eu poderia entrar para rever este lugar? Enquanto aguardava a resposta, tive a impressão de que tudo estava abandonado.
- Boa tarde! Sinto muito, mas está em reforma. Respondeu-me o rapaz a quem me dirigi.
Fiquei um pouco chateado por não poder entrar, mas feliz por saber que estava enganado em minha impressão. Que aquele lugar seria recuperado e teria vida novamente.
Restou-me, então, o consolo de, num exercício de memória, voltar no tempo e refazer todo o caminho que tantas vezes percorri para chegar até ali e além daqueles portões.
Subia a rua da igreja e entrava à esquerda, em direção ao Jardim da Rainha. No final da rua, uma pracinha, à direita, um barzinho e à esquerda, o lago.
Identificação, mensalidades em dia, entrada liberada.
Ruazinha de terra, estreita, em meio às árvores e plantas ornamentais. Acesso a um vale que da portaria não é possível avistar.
Contornada a curva, à direita uma casa. Talvez do proprietário ou do responsável pelo local. Não sei dizer. Um pouco mais à frente, ainda à direita, um galpão. Grande, sem paredes laterais. Utilizado para bailes, festas ou mesmo para repouso e reunião de amigos.
Depois, os vestiários. De frente para a piscina. Pequena, aconchegante e disputada nos dias mais quentes. Entrada controlada pelo porteiro. Ludibriado, às vezes, com um comprovante de exame médico emprestado de um amigo ou por uma ducha no vestiário, para dar a impressão de que já estivera na piscina. Coisas da adolescência.
Lá no fundo do terreno, um bosque com churrasqueiras. Lanchonete. Campos de bocha e de futebol. Em uma das laterais do terreno, um pequeno córrego de água limpa e muito fria. Vinha, acredito eu, lá dos lados da fábrica de pólvora.
Saindo do campo, passando pela lanchonete e seguindo por uma ruazinha à direita, em meio à vegetação, chegava-se a uma outra casa. Que me lembre, era usada para exames médicos e administração. De lá se avistava quase que todo o terreno. À direita o lago e à frente o parquinho. Proibido para maiores de dez anos, se não me engano. Balanços, gangorras e escorregadores. Miniaturas de casas. Coloridas e enfeitadas. Diversão das crianças.
O córrego, o mesmo que passava ao lado do campo de futebol, cruzava toda a extensão do parquinho, exagerando nas curvas como se quisesse prolongar sua permanência naquele espaço infantil e encantado. Ia descansar suas águas no lago da entrada.
Nos finais de semana faltava espaço para tanta alegria. Risos e vozes ecoavam por todo o vale. Na água, os rapazes exibiam suas habilidades. Mergulhos e braçadas fortes. As garotas, em seus banhos de sol, emprestavam um colorido todo especial ao piso que circundava a piscina.
As crianças corriam de um lado para outro. Ora na piscina, ora no parquinho. Não tinham parada. Esbanjavam energia. Ainda bem.
Para os adultos que queriam apenas sossego, o deleite das caminhadas por entre a vegetação ou da soneca à sombra das árvores ou de um quiosque, depois do churrasco ao lar livre.
E essa era a rotina deliciosa daquele ponto de encontro de boa parte dos moradores da cidade.
Agora, depois de alguns meses, voltei para conferir o andamento da reforma.
- Boa tarde! Eu poderia entrar para rever este lugar? Enquanto aguardava a resposta tive a certeza de que tudo estava abandonado.
- Boa tarde! Sinto muito, mas está fechado. Respondeu-me o rapaz a quem me dirigi. Pararam a reforma. As piscinas estão vazias. O mato toma conta de tudo. Os esgotos invadiram o pequeno córrego. Em resumo, tudo está abandonado. Completou, como que lendo meu pensamento.
Que pena. Minha alegria durou pouco. Apenas alguns meses. O vale, definitivamente, faz parte do passado. O Vale do Sol agora é apenas uma saudosa lembrança.

Ayrton Corrêa é aposentado e reside em São Paulo. Morou 30 anos em Itapevi. E-mail: ayco@superig.com.br.