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Governo
Lula
sanciona lei que cria o programa renda mínima
Brasil
- O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou no dia 8
de janeiro, quinta, a lei que institui a Renda Básica de Cidadania
no Brasil, conhecida como renda mínima.
Durante o ato solene, o senador Eduardo Suplicy (PT-SP), autor do projeto,
quebrou o protocolo ao discursar na solenidade realizada no Palácio
do Planalto. Ao final de sua fala, Suplicy, chorando, pediu permissão
para beijar Lula.
A lei foi aprovada pelo congresso e deverá se instituída
gradualmente, com prioridade para as camadas mais necessitadas da população,
até que venha a abranger todos os brasileiros residentes no país,
inclusive os estrangeiros residentes há cinco anos ou mais.
A proposta prevê um benefício que atenda as despesas mínimas
de cada pessoa com alimentação saúde e educação.
Economista belga elogia lei
O programa renda mínima do governo Lula difere dos programas sociais
porque "ataca a pobreza sem criar dependência e sem criar a
armadilha que exclui a população pobre do mercado de trabalho".
É o que diz o filósofo e economista belga Philippe Van Parijs,
52, professor de economia e ética social Universidade Católica
de Louvain (Bélgica), um dos maiores especialistas em renda mínima
do mundo, que desde terça-feira está no Brasil acompanhando
o senador Eduardo Suplicy. O belga também ocupa o cargo de secretário
da Bien (sigla em inglês para Rede Européia da Renda Básica),
criada em 1986.
"Diferentemente dos programas de bem-estar exclusivamente voltados
para os pobres, a Renda Básica de Cidadania contém o compromisso,
quando inteiramente implantada, de atacar a pobreza sem criar dependência,
de garantir a todos a subsistência diária sem estigmatizar
o pobre, sem criar uma armadilha que os exclui do mercado de trabalho",
afirmou Van Parijs.
O que é o renda mínima
A lei que institui a Renda Básica de Cidadania no Brasil, conhecida
como Renda Mínima, prevê o repasse de benefícios que
atendam às despesas mínimas de cada pessoa residente no
país com alimentação, saúde e educação.
A proposta foi aprovada pelo Congresso Nacional e deverá ser instituída
gradualmente pelo governo, com prioridade para a população
mais carente. A meta é que consiga abranger todos os brasileiros,
inclusive os estrangeiros residentes no país há cinco anos
ou mais.
O senador afirma que o projeto renda mínima deverá ser o
futuro do recém-implantado Bolsa-Família, que unificou as
ações sociais do governo.
"Ficará a critério do Executivo estabelecer as etapas
do grau de abrangência da renda de cidadania. Este aspecto da lei
teve por preocupação torná-la compatível com
a Lei de Responsabilidade Fiscal, pois a cada ano o governo deverá
estabelecer no Orçamento os recursos necessários para gradualmente
atingir a todos. Isso torna a forma de introdução da renda
básica compatível com a lei recente que institui a Bolsa-Família",
afirma Suplicy.
São Paulo
Na cidade de São Paulo, o programa Renda Familiar Mínima
atende a famílias com renda inferior a meio salário mínimo
per capita, residentes há dois anos no mínimo, e que tenham
filhos em idade escolar. O benefício mensal é associado
à frequência escolar.
Segundo números da prefeitura paulistana, até dezembro de
2003 o programa - em funcionamento desde abril de 2001- beneficiava cerca
de 200 mil famílias em 51 distritos do município. A meta
era chegar a mais 45 distritos até o final deste ano.
A administração municipal complementa 66% da diferença
entre a renda da família e o valor que ela teria se cada membro
recebesse meio salário mínimo --atualmente em R$ 120. O
sálário mínimo vigente no país é de
R$ 240.
"EUA armam
ofensiva contra direitos sociais", diz Chomsky
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sozinho, não tem forças
para romper com a subordinação aos Estados Unidos e com
a política imperial das corporações. Em entrevista
ao jornal Brasil de Fato, de 06/01/04, o professor norte-americano de
lingüística Noam Chomsky afirma que apenas com mobilização
do povo brasileiro, cooperação internacional e conscientização
da população dos EUA Lula vai conseguir criar uma alternativa
de desenvolvimento para o Brasil. A entrevista foi realizada por João
Alexandre Peschanski, em Cambridge (EUA).
"Pergunta George W. Bush defende
invasões, como a do Iraque, e repressões a manifestantes
antiglobalização, como a de Miami na reunião da Área
de Livre Comércio das Américas (Alca), dizendo que fazem
parte da luta por liberdade. O que é essa liberdade?
Noam Chomsky O povo brasileiro sabe bem do que se trata.
No Brasil, no período da ditadura, os militares justificavam a
violência e a repressão dizendo que o faziam em nome da liberdade.
No momento do golpe de Estado militar, em 1964, o governo estadunidense
mandou uma carta aos militares brasileiros parabenizando-os por terem
proporcionado uma das maiores vitórias da liberdade no século
XX. Para Bush, liberdade quer dizer "faça o que eu quero."
E isso não é contraditório com organizar golpes militares
neonazistas ou, graças ao modelo neoliberal, impedir que governos
democráticos, como o de Lula, consigam fazer mudanças fundamentais
em seus países. A liberdade do Bush é seguir à risca
o que ele quer e, se algum país resistir, esse país terá
sua economia destruída.
Pergunta Essa "liberdade" é imposta pelas
corporações?
Chomsky Ela é imposta por uma rede de arranjos econômicos
internacionais, que funcionam de tal forma que garantem que governos não
têm como existir a não ser aceitando a ordem dessa rede.
Assim, mesmo que eles possam tentar definir suas políticas em defesa
do povo, os governos acabam muitas vezes fazendo o jogo das corporações
e instituições financeiras. Os governos, e inclusive o brasileiro,
têm duas constituições: a de seu povo e a dos investidores
internacionais. E geralmente é a segunda que prevalece, porque
os investidores ameaçam o governo, enfraquecem a moeda, ditam políticas
públicas. Eles têm o poder de destruir um governo. Todos
os elementos do pacote neoliberal foram pensados para restringir a democracia.
Quando o Brasil, por exemplo, privatiza uma instituição,
privatiza uma parte de sua economia e de sua política. Reduz sua
arena pública e enfraquece sua democracia. O mesmo ocorre com a
privatização de serviços, como educação,
saúde, segurança e previdência. A vida e a cidadania
são transformadas em assuntos privados e postas à venda.
Isso elimina a arena pública quase integralmente e esvazia a democracia
e a liberdade, algo que Bush pode dizer e citar, mas que politicamente
não quer dizer nada, pois está vazio.
Pergunta Quais são as principais conseqüências
dos quatro anos de governo do Bush para os estadunidenses?
Chomsky As pessoas que estão no comando do governo
estadunidense têm uma agenda muito clara: querem fazer nos Estados
Unidos o mesmo que querem fazer no Brasil e no resto do mundo, isto é,
eliminar o sistema democrático e acabar com as conquistas sociais
do século passado. Enquanto restringem o poder de outros governos
no mundo inteiro, desejam aumentar o tamanho e a força do governo
estadunidense para que sirva aos interesses de um grupo reduzido de privilegiados.
Nessa lógica, tudo o que o governo faz de bom para a população
precisa ser desmontado: previdência, saúde, educação
etc., e só devem sobrar os impostos. No campo da saúde,
o governo investe bilhões de dólares para ajudar corporações
a desenvolverem remédios, que são vendidos a preços
exorbitantes, numa inversão de valores, pois o público financia
o privado para se prejudicar. Ao mesmo tempo, de acordo com a lei, estadunidenses
não têm direito de comprar remédios no Canadá,
onde são mais baratos. O povo sempre sai perdendo e quem ganha
são as corporações farmacêuticas. Nos EUA,
80% são a favor da saúde pública e gratuita. Mas
Bush diz que isso não é politicamente possível.
Pergunta Internacionalmente, qual é a principal característica
do governo Bush?
Chomsky Os tratados de livre comércio são
um bom exemplo de como a política de Bush funciona internacionalmente.
É o livre comércio implementado de toda forma: invasão,
pressão política, ameaças. Na reunião da Organização
Mundial do Comércio (OMC), em Cancún, o Brasil tentou alguma
resistência, mas de forma limitada. Lula questionou os subsídios
governamentais à agricultura dos países ricos, mas o que
realmente importa é questionar a atuação das grandes
corporações de agronegócio que dominam a produção
e a política agrícola do mundo.
A política imposta pelas corporações, na verdade,
não tem nada de livre comércio. [O economista inglês
do século XVIII] Adam Smith riria se falassem para ele que isso
que vivemos hoje é livre comércio. Para Smith, a base do
livre comércio é a livre movimentação das
pessoas. Basta ver o número de mexicanos mortos e presos na fronteira
com os Estados Unidos para ter certeza que livre comércio não
traz liberdade para as pessoas. A criação do Acordo de Livre
Comércio da América do Norte (Alcan ou Nafta, em inglês),
em 1994, foi acompanhada pela militarização da fronteira
entre o México e os EUA, o que novamente nos revela a política
de Bush: maximizar os lucros das corporações e subordinar
o povo. Se você ler o último relatório do Banco Mundial
sobre o Nafta, vai ver que os investimentos estrangeiros aumentaram no
México, mas não têm compromisso com o desenvolvimento
do país. Aliás, o total de investimentos no México
caíram por causa da impossibilidade de empresas locais competirem
com grandes corporações. Cada vez mais, por causa do Nafta,
a economia e a política do México são orientadas
por transnacionais. O comércio entre os Estados Unidos e o México
não aumentou de fato; o que aumentou foi a quantia de dinheiro
que corporações movimentam entre si além de fronteiras.
Por exemplo, se a General Motors faz carros no México, onde pode
pagar menos para os trabalhadores e desrespeitar leis de meio ambiente,
e os envia aos Estados Unidos, isso não é comércio,
mas sim uma operação interna de uma corporação
que se beneficia de acordos internacionais.
Pergunta As conseqüências da Alca serão as
mesmas do Nafta?
Chomsky Claro. Os dois acordos estão baseados nos
mesmos princípios e se resumem em aumentar o poder das corporações,
que são enormes tiranias internacionais. A Alca significa submissão
à política das corporações e renúncia
ao desenvolvimento econômico dos países, pois nenhuma transnacional
vai apoiar o fortalecimento de concorrentes. Para a América do
Sul, aceitar a Alca é renunciar a desenvolver seu próprio
pólo industrial. Já os Estados Unidos, depois de assinarem
a Alca, irão contra as regras todas as vezes que quiserem e ninguém
vai poder reclamar, pois são o país mais rico e poderoso.
Pode parecer simplista, mas a Alca funciona, de fato, com a lógica
da colonização.
Pergunta Lula oferece uma real resistência a essa recolonização?
Chomsky Ele está tentando fazer resistência,
mas não muita. Isso era previsível. Um governo popular de
esquerda no Brasil teria de ser mais reacionário que seus antecessores,
pois teria de preservar o que os donos do mercado chamam de credibilidade
em relação aos investidores internacionais. Também
não dá para criticar Lula pois não há muitas
opções neste sistema complicado. O único modo de
tirar o governo desta linha e mudar o rumo do país
é expulsar e rejeitar o sistema. Para tanto, a primeira etapa é
cancelar o pagamento da dívida externa, que não é
legítima. Também é necessário fazer a distribuição
de renda e de propriedade, para colocar o Brasil no eixo do desenvolvimento
e tirá-lo da subordinação aos imperativos das corporações.
Para que a ruptura com o sistema ocorra, é preciso muito apoio
interno. O povo precisa estar pronto e disposto a entender as conseqüências:
resistir a ataques do sistema, lutar, trabalhar para criar um novo projeto
de desenvolvimento. É preciso haver cooperação internacional,
e o Mercosul, se consolidado, pode ser uma importante ferramenta. Finalmente,
são necessários movimentos de solidariedade dentro dos Estados
Unidos e de outros países ricos, para impedir seus governos de
realizarem intervenções militares. Passadas essas etapas,
o Brasil terá como realizar verdadeiras mudanças estruturais
que beneficiem seu povo. É um caminho longo e que depende da organização
dos movimentos sociais.
Pergunta O senhor assinou uma carta dirigida a Lula, pedindo
que a direção do Partido dos Trabalhadores (PT) reconsiderasse
a expulsão, do partido, de deputados e da senadora Heloísa
Helena. Qual sua avaliação sobre a situação
do PT?
Chomsky Não posso falar do Brasil assim como pessoas
que estão dentro do país. Na minha avaliação,
expulsar esses deputados foi péssimo. Não acho que parlamentares
devam ser expulsos por não aceitarem imposições do
partido. Por isto assinei a carta, porque acho que vai contra o princípio
de democracia que o PT carrega.
Pergunta Qual deve ser a estratégia dos movimentos sociais
brasileiros em relação ao governo?
Chomsky Os movimentos sociais precisam trazer o governo para
seu lado. É preciso entender que o governo não é
um agente independente. Há imposições estrangeiras,
ameaças de estrangulamentos econômicos e intervenções
militares que obrigam o governo a agir com cautela. Essas ameaças
podem ser vencidas, mas a luta deve ser muito intensa. Por isso, os movimentos
sociais, mais do que nunca, têm de organizar ainda mais sua base
e mobilizar a população brasileira. Hoje, a mobilização
no Brasil já é tremenda, mas precisa ser ainda maior. O
mesmo precisa ocorrer nos Estados Unidos, onde, se você passear
na rua e perguntar paras as pessoas o que é livre comércio,
quase ninguém saberá responder. É preciso aumentar
a consciência política e a mobilização dos
estadunidenses isso será uma grande ferramenta para a vitória
no Brasil. "
Avram Noam Chomsky, 71, linguista estadunidense,
é professor no Massachusetts Institute of Technology (MIT), um
dos principais centros de pesquisa dos EUA. Escreveu mais de 60 livros,
entre eles 23 sobre a política dos EUA e é um dos mais renomados
pensadores de esquerda da atualidade
Miro Teixeira se
desliga do PDT
Brasília - O ministro das Comunicações, Miro Teixera,
acaba de divulgar nota anunciando o seu afastamento do PDT. Segundo Miro,
sua posição, diferentemente do partido, é de apoio
ao presidente Lula, integrando ou não sua equipe. A decisão
do ministro ocorre depois que a executiva nacional do PDT fixou até
31 de janeiro como data-limite para que os filiados do partido que integrem
o governo abandonem seus cargos.
A íntegra a nota:
É com pesar que comunico aos companheiros do PDT, aos quais devoto
respeito, que deixo o partido, levando comigo inesquecíveis e agradáveis
lembranças dos dezesseis anos de convívio. Contrária
à decisão partidária, minha posição
é de apoio ao presidente Lula, integrando ou não sua equipe.
De meu cargo, sempre dispôs o excelentíssimo senhor presidente
da República, que prescinde de minha renúncia para me substituir.
Fonte: www.radiobras.gov.br
Ellis Regina (repórter da Agência Brasil)
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