Contando História
Ayrton Correa

UM BOM PAPO

Estava sentado sem fazer nada. Apenas observando a paisagem e com o pensamento em repouso. Afinal tem hora que é bom se entregar à árdua tarefa do não fazer absolutamente nada. E eu estava assim quando ouvi, sem querer, alguém falar em bater papo. Alguém convidava outro alguém para bater papo. Conversar. Jogar conversa fora.
Meu cérebro, coitado, que estava em repouso, acordou de repente. Assustado. Fazia tempo que não ouvia ninguém fazer um convite daqueles. Era comum ouvir coisas do tipo: "vamos jogar vídeo game"; "vamos dar um rolê" ou "vamos pegar um cinema". No entanto, "vamos bater papo" fazia realmente muito tempo que não ouvia alguém dizer.
Pronto. Acabaram com o meu repouso. Confesso que senti uma pontinha de inveja por não poder participar daquela turma. Fiquei imaginando aquela galera reunida no boteco da esquina, tomando uns refrigerantes e falando de tudo um pouco. Mulheres, futebol, corrida, música, cinema...
Ou à beira do campo de futebol, como era comum lá na minha vila, enquanto a bola corria solta no gramado. É, gramado, sim senhor. Grama de verdade. Daquelas que, quando não havia jogo, servia de pasto para os cavalos.
Bate-papo durante uma rodada de truco. Bate-papo em frente a um dos vários portões da minha rua. A conversa apenas começava e o grupo aumentava rapidinho. Conversa jogada fora no campo de malhas, enquanto esperava a vez. Na porta do bar, perto da caixa d'água. Bate-papo na fila do cinema, no Vale do Sol, na CJC e no pátio da Igreja. Na quermesse, no colégio, e na casa do vizinho.
O lugar era apenas um detalhe. O importante era aproveitar a oportunidade para bater papo. Para falar de tudo um pouco, sem se preocupar muito com o conteúdo. A seleção do assunto era natural. Se agradava, durava horas.
E não era costume só da vila, não. Na cidade todo mundo conversava muito. As rodinhas se formavam nos bares, na plataforma da estação ferroviária, na barbearia, na ponte, no banco da praça, na padaria, no açougue e nas esquinas.
E eu, no meu canto, ouvia a turma combinando o horário em que a reunião para o bate-papo deveria acontecer. Eram mais ou menos quatro ou cinco pessoas. Todas jovens.
Fiquei imaginando que iriam para um barzinho ou mesmo para um shopping. Fiquei imaginando, também, aquele grupo se olhando, olhos nos olhos, trocando sorrisos e expressões. A animação da conversa, o clima contagiante do momento.
É, pensei: tal e qual lá na minha terra, no meu tempo. Nada de pressa ou de corre-corre. Amigos chegando, um aperto de mão. A alegria de se rever.
Eu já estava até ficando cansado de tanto imaginar, quando chega a hora da anunciada reunião. E eles começaram a sair, um a um. E, pelo que pude entender, ia cada um para sua casa.
Que pena, pensei, a reunião não deu certo. Confesso que estava ficando chateado quando me avisaram: "vou ligar o micro que meus amigos já estão conectados para bater papo.
Eu devia ter imaginado. Era bate-papo pelo computador. Nada de reunião. Cada um na sua casa. Puxa, eu demorei pra perceber.
Também pudera. Fui pego de surpresa.

Ayrton Corrêa é aposentado e reside em São Paulo. Morou 30 anos em Itapevi. E-mail: ayco@superig.com.br.