| Ayrton
Correa
AS
SAUDADES DO FUTURO
Circular pela cidade, para quem a conheceu tempos atrás
e hoje é apenas visita, ficou um tanto quanto complicado.
Não dá mais para falar "ali, na Rua Rio Branco".
Não existe mais a rua com este nome. Mudou. Como quase tudo mudou.
Referências como o campo do Grêmio, a chácara do japonês,
o campinho, o campo de malhas, as casas de turma da ferrovia, fazem parte
do passado. Os mais novos não fazem a menor idéia de onde
ficavam esses lugares.
As referências hoje são outras. E não poderia ser
diferente. O progresso avança e construções ou lugares
mais antigos dão lugar à modernidade.
Eu, no entanto, muitas vezes me oriento com base em algumas coisas do
passado. Sei que a loja que estou procurando fica perto do ginásio
de esportes. Mas só sei onde fica esse ginásio porque me
disseram que é lá pelos lados da ponte da prefeitura. Na
direção da cerâmica.
Será que se eu dissesse a um taxista, novo na cidade, que eu gostaria
de ir até a casa da minha prima, que mora perto da cerâmica,
eu chegaria lá? É provável que não.
Assim é na minha vila. A venda do João do Bote, onde era?
Alguém saberia me dizer onde ficava o mangueirão? A plaquinha
e a biquinha, alguém sabe? E o cabo de aço? Pra que lado
ficava a lagoinha? E a olaria? Aliás, olarias. Eram duas. E a sede
provisória do Jardim Portela Esporte Clube? Se eu perguntar onde
ficava o lenheiro, aí mandam me internar, com certeza.
São lugares que fazem parte da história do povo. Lugares
dos quais não existem fotos. Estão apenas na memória
de quem os conheceu. Na memória de quem os freqüentou e fez
deles seus lugares preferidos. E foram muito importantes. Importantes
a ponto de despertar uma ponta de saudade quando lembrados.
Como foram igualmente importantes a velha fábrica de vinho, o frigorífico,
a fábrica de cimento, a sede da prefeitura, o campo do CIPE, o
campo do América, o Clube de Campo Vale do Sol, a CJC, o salão
do Aviador e o cinema do Pereira, por exemplo. Tenho certeza que o morador
mais antigo vai se lembrar de muitos outros lugares que deixaram de existir
ou foram transformados com a modernização.
E as mudanças não param. Fazem parte do crescimento da cidade.
Amanhã as novas gerações poderão se lembrar,
por exemplo, que no lugar do complexo esportivo ultramoderno existia um
ginásio de esportes; que a Universidade de Itapevi ocupa o lugar
antes ocupado pelo velho e bom CEI; que as linhas da estrada de ferro
deram lugar aos trilhos do metrô; que um dos maiores centros poliesportivos
da região foi construído exatamente no lugar do Estádio
Municipal de Futebol.
Então, dependendo do quanto freqüentaram e prestaram atenção
a estes lugares que hoje aí estão, do quanto fizeram, destes
lugares, parte do seu dia-a-dia e do que eles representaram em uma etapa
de suas vidas, é possível que, no futuro, também
sintam um pouquinho de saudade.
Ayrton Corrêa é aposentado e reside em São Paulo. Morou
30 anos em Itapevi. E-mail: ayco@superig.com.br.
|