Contra-Ponto

Não esqueça, Lula:
a voz do povo é a voz de Deus!


Estamos contentes. A inflaçãojá se foi.Absolutamente controlado está o déficit público, assim como foi alcançado o superávit primário. O dólar está como o governo quer, não ultrapassa os três reais. As exportações batem todos os recordes, encabeçadas pelo agronegócio. Os juros efetivamente estão caindo, e vão cair ainda mais.O risco Brasil (artimanha safada criada pelo capitalismo para explorar ainda mais o terceiro mundo), está está despencando a olhos vistos. Se continuar assim, o meio simpático Antônio Palocci terá direito à imortalidade, sem que se faça necessário sem que se faça necessário a sua entrada para a Academia Brasileira de Letras. Agora parênteses aqui para dar nota ZERO para a Academia, deixando de eleger o nosso valoroso colega Fernando Morais e preferindo o Marco Maciel, escritor de que obra?? Pobre Academia!!
No campo financeiro, finanças externas e internas, não há uma só voz descontente com o governo, com a sua equipe econômica. Todos estão contentes. Ou melhor contentíssimos!
Inegavelmente, nosso presidente operário tem se mostrado superior ao Governo FHC no cumprimento dos acordos e dos agrados ao Fundo Monetário Internacional - FMI. É sabido que o nosso simpático Luiz Inácio Lula da Silva não cursou uma faculdade. Não tem diploma de nível superior. Também é mais sabido que ele cursou a grande universidade da vida, aquela que ensina todas as matérias - que só os alunos excepcionalíssimos como ele e o seu colega Lech Valessa, ambos operários chegaram à presidência de seus países. Ambos se mostraram alunos aplicados das regras impostas pelo FMI e dele receberam nota dez. O polonês, coitado, ninguém mais se lembra dele. Era a grande esperança dos trabalhadores e do povo polonês. O papa, que é seu conterrâneo, o abençoou dezenas de vezes, num punhado de bênçãos...Valessa combateu o comunismo e foi peça fundamental na arregimentação dos trabalhadores, parando a nação polonosa e expulsando de lá os comunistas. Só assim os trabalhadores e todo o povo polonês teriam direito a uma vida digna, propalava-se. Ilusão, pura ilusão, ledo e puro engano...
Estive como nosso presidente inúmeras vezes. Tenho grande simpatia pessoal pelo mais ilustre filho de garanhuns. Sinto no Lula a marca registrada da sinceridade. Sei perfeitamente quanto ele sofre, vendo os seus irmãos não só nordestinos, como ele e como eu, passando fome. Só quem passou fome pode falar dessa coisa desgraçada, provocadora de uma dor no pé do estômago, que não há ser humano que resista. Diante dessa máquina, que me acompanha quase cinquenta décadas de jornalismo, vou recorrer aos meus arquivos para deixar que o próprio Lula fale a respeito da fome.Ninguém, absolutamente ninguém tem mais autoridade neste país para falar disso do que o nosso presidente operário. Sentiu ele na própria pele, aquela dor na boca do estômago. Não só ele, mas também seus irmãos, sua mãe. Frei chico, seu irmão mais velho que o levou ao sindicalismo, meu ex companheiro do Partido Comunista, que o diga se achar interssante dizê-lo. Antes disso, no entanto, ouçamos atentamente Lula:
"É necessário que se entenda que não existe tortura maior do que passar fome, e somente quem passou fome sabe. Somente quem vê um filho pedindo comida sabe o que é tortura. Somente quem mora numa favela sabe o que é tortura. Não apenas tortura de apanhar, te tomar choque nos testículos, de ficar na cadeira do dragão, de ir ao pau-de-arara. Não é essa a maior tortura. A maoir tortura é um apai de família trabalhar trinta dias por mês, chegar em casa e não ter o que comer".
Há anos estive na modesta casa de Lula, lá nos arredores de São Bernardo do Campo. Foi quase uma manhã, gostosa manhã regada a uma cahacinha, onde todos podiam se servir a vontade, pois, na pequena sala da residência daquela figura simples, séria e humana, que despontava como a maior liderança sindical do Brasil, havia um pequeno barril (de carvalho provavelmente). Era uma branquinha de exelente qualidade. Saí dali bem inpressionado com o Lula, e, graças a Deus essa impressão me acompanha até hoje neste exato momento em que datilografo estas linhas para o Jornal da Gente e outros mais, valorosa imprensa que colabora na caixinha do Geraldo, para que ele (eu) não morra de fome...Colaboradores como o Porcino, o Calasans, amigos que nutrem por mim uma certa simpatia e bem sabem que preciso matar diariamente um leão para ter o que comer e sobreviver à fome.
Disso tudo me sinto a vontade para falar do nosso presidente, até porque tenho idade suficiente, mais de setenta - e o que é mais importante, uma apurada percepção para ver, ouvir, sentir. Percepção que também é produto de muitos "filems" que já vi ao longo da história política do Brasil e dos sofridos povos do chamado Terceiro Mundo. Torço pelo governo Lula. Peço sempre a Deus que ele alcance todas as metas que estão na sua cabeça, mas uma coisa dentro de mim pede (pede não, exige, exige mesmo)que eu seja oportador de uma mensagem para ele, mensagem que repete a voz dos mais humildes, dos que passam fome, dos desempregados, dos sem-teto, dos sem-saúde, sem perspectivas, enfim, desgraçados.
Lula- Eu estou livre. Liberto. Percorro de ônibus, metrô, trens, peruas, vans, táxis, converso com trabalhadores de diversas profissões e categorias. Gente do povo, classe média, estudantes, militares e civis. Noto, anoto, sinto e ausculto o coração dessa gente e registro que suas esperanças estão acabando. Há quase que uma decepção geral. Dois nomes estão vinculados a isso e gozam de uma antipatia geral: FMI e Palloci. Chego a falar para alguns, não fosse Palloci a situação estaria bem pior. Como resposta contundente acabo ouvindo, bem pior do que está.
Quando me recolho para dormir, o pensamento voa. Vôo longo e demorado. E as perguntas sem respostas que me faço continuam inexistentes, e se encontro alguma resposta fico muito indignado. Por mais que tente compreender, sinto uma enorme dificuldade e fico indagando: porque o operário Presidente está agradando tanto aos poderosos, aos ricos de todos os tempos e não aos pobres que o elegeram? Porque o capital interno e externo ri à toa de satisafação com seu governo?
Você sabe Lula, o Brasil cresceu tão pouco, seu PIB cresceu apenas 12% nos seis anos compreendidos entre 1996 e 2001, mas a mídia de aluguel, amestrada, se encarregava de fazer a massagem cerebral no nosso povo - e todos acreditavam que o país caminhava bem com o desastroso governo do apátrida FHC.Agora também a situação nos decepciona. No seu primeiro ano de governo, Lula, não houve crescimento no PIB nem de 1% - e o que é preocupante: as previsões para este ano é de apenas 3 a 3,5%. É a velha estratégia de Malan, jogando sempre para o futuro, que se repete, no meio do ano a coisa vai melhorar. E quando se chegava ao meio do ano, a promessa se transferia para o fim do ano, e no fim do ano, passava-se para o outro ano.E assim levaram eles uma empreitada de oito anos de mentiras, engodos, farsas e total falta de respeito para com a Nação e o seu povo.
O povo, Lula, está desconfiado. A saúde, nada, absolutamente nada melhorou.
É preciso, meu caro Lula, dizer ao povo só a verdade. Em 1945 no parque 13 de maio na capital de nosso Estado, cidade do Recife, se ouvia de Luiz Carlos Prestes no seu primeiro encontro com os trabalhadores pernambucanos, depois de cumprir mais de oito anos de prisão que lhe inpusera a ditadura de Getúlio: "Trabalhadores de Pernambuco, sabeis que ao povo eu só sei dizer a verdade". Em verdade meu caríssimo Lula, a marca registrada de todo governo que se preza, de todo homem público sério, é dizer somente a verdade, exclusivamente a verdade, nada mais que a verdade.
Abra a caixa preta, Lula, e diga ao seu povo como você realmente encontrou a Nação. Diga ao povo com sinceridade insuspeita o que é possível fazer ou desfazer. Com a sua linguagem de homem do povo, Diga-nos quanto a Nação paga mensalmente da dívida externa e interna, o que ela representa diante o roçamento que você dispõe. O povo saberá intendê-lo e suas esperânças poderão ser renovadas, desde que no seu bate-papo cheio de sinceridade, o homem simples, sinta que esta Lula é o mesmo Lula candidato e, dentro da realidade cruel que encontrou, o que se pode humamente fazer é o que está sendo feito, é isso que está aí.
Quem sabe se o povo não o aconselhará a fazer algo diferente? Talvez mudar mesmo essa caminhada que nos poderá jogar no abismo? Não esqueça, meu caro Lula: a voz do povo é a voz de Deus. Que Ele o ilumine!!!

Geraldo Pereira, jornalista e membro do Sind.
dos Jornalistas de São Paulo e da ABI (Assoc. Bras. de Imprensa)