Uma
esperança?
Poucos, pouquíssimos homens públicos em meu País
mereceram ou merecem os meus respeitos. Não obstante ter participado,
até agora, da vida política do Brasil desde quando me entendo
por gente. Já se vão, assim, mais de seis décadas
de efetiva participação. Quer na imprensa, quer nas praças
públicas, nas reuniões, nos eventos de todas as ordens,
onde os interesses nacionais requeriam coragem para defendê-los.
Pessoalmente só uma vez me liguei em um partido. Filiei-me ao Partido
Comunista do Brasil em 1945, quando da redemocratização
do Brasil, após os 15 anos de governo Vargas, notadamente nos últimos
8 anos, como ditador - novembro de 37 a outubro de 45.
Estudante no Recife combati, ainda adolescente, a ditadura de Getúlio.
Empolgava-me a batalha travada por um outro dirigente sindical, pelos
estudantes e professores da Faculdade de Direito do Recife, tradicionalmente
casa de ensino que, junto com a do Largo São Francisco, representavam
dois estreitos na defesa das liberdades, sufocadas pela ditadura. Empolgava-me
as figuras dos mestres daquela casa do saber jurídico de minha
terra, e mais a presença de Gilberto Freyre, no combate sem receio,
enfrentando a polícia violenta e arbitrária de Agamenon
Magalhães e Etelvino Lins, interventores da ditadura.
As passeatas, o enfrentamento, o choque... Na última, batalha chegou
ao na tarde de 03 de março de 1945, quando trabalhadores, estudantes,
professores e os intelectuais mais arejados e corajosos saíram
em passeatas pelas ruas do centro da cidade, clamando por eleições
e liberdade. Depois a passeata se concentrou na Praça Diário
de Pernambuco. Alguns oradores usaram da palavra, Gilberto Freyre - líder
de todos nós, como a mais importante figura e de maior prestígio
nacional e internacional, encerraria o ato, ato aliás brutalmente
encerrado pela polícia, com mortes do estudante Demócrito
de Souza Filho e do carvoeiro Elias da Silva.
Este episódio triste de nossa história contribuiu - e muito,
para a derrota da ditadura, o que acabou acontecendo em 29 de outubro
daquele ano, com o golpe desferido pelas Forças Armadas contra
a ditadura.
Antes o Brasil viveu o seu espetáculo maior com a chegada dos nossos
heróis expedicionários. Aqueles que foram para os campos
de batalha da Europa defender as liberdade, liberdades que os tiranos
Hitler, da Alemanha Nazista, e Mussolini, da Itália fascista, assim
com os japoneses, queriam sufocar.
Espetáculo maior, só mesmo com a chegada de Prestes no Recife,
depois de cumprir mais de oito anos de prisão que lhe forma impostos
pelo ditador Getúlio Vargas. Prestes levou para o Parque 13 de
Maio, na minha cidade, mais de cem mil pessoas, isso em 1945! Eu próprio
andei 6 quilômetros para assistir ao comício, notável
espetáculo que me marcou para sempre.
Forma-se então a chapa para deputados federais, e o Cavaleiro da
Esperança Luiz Carlos Prestes, convida o meu líder Gilberto
Freyre para integrá-la. Este recua e se elege pela UDN (União
Democrática Nacional), partido composto por usineiros e fazendeiros,
tão antipovo como o outro lado que se apoiou no Getúlio,
o PSD (Partido Social Democrático), este que elegeu o candidato
Eurico Gaspar Dutra. Um presidente medíocre e serviçal.
Cumprindo ordens do presidente americano Henry Trumann, num desses atos
safados, tão constantes na vida política do Brasil, cassou
o registro do Partido Comunista e mais tarde, também, cassou os
mandatos dos seus parlamentares.
Filiado que estava ao Partido Comunista, decepcionei-me com esta safadeza
sem limites, com os desrespeitos à Constituição praticados
em todo o País pelo governo federal, e também pelos governadores
pessedistas e udenistas, todos farinha do mesmo saco, velhos canalhas
descompromissados com a Pátria e com o seu povo.
Namorei o PSB (Partido Socialista Brasileiro). O pequenino partido do
doutor João Mangabeira. Acreditei que esse era o caminho para prosseguir
na luta, continuar com ela ao lado de novos companheiros, onde, além
do velho e respeitável Mangabeira, outras figuras se destacavam,
como Hermes Lima, Domingos Velasco, Raimundo Magalhães Júnior
e o saudoso e sempre por mim admirado colega Edmar Morel.
Acostumado que estava com escola política do Partido Prestes, com
as aulas todas as noites em suas células, falei com o doutor Mangabeira
para fazermos o mesmo no seu partido. Argumentei: De que adiante esse
pequeno punhado de socilistas - eu no meio deles, sem conhecimento político,
sem uma linha de atuação prática em defesa dos trabalhadores
e da Pátria?
Mais tarde, Lenine disse que os companheiros de viagem são importantes.
Uns nos acompanham até a metade do caminho, outros um pouco mais
longe. É a falta de ideologia que os fazem recuar no caminho da
luta revolucionária. Um partido sério, corajoso, atuante,
de princípios morais irrepreensíveis. Não encontrei
um partido com esses predicados. Nem por isso abandonei a luta. Posso
dizer mesmo que doei minha participação a todos os movimentos
de esquerda, às lutas em defesa das boas causas, sem visar, em
absoluto, nada de caráter pessoal para mim mesmo, quando muitas
dessa lutas se fizeram vitoriosas. Lutas vitoriosas que me poderiam proporcionar
uma velhice tranqüila...
Iniciei este artigo afirmando que "poucos, pouquíssimos homens
públicos em meu País mereceram ou merecem os meus respeitos.
Há muito abri uma exceção para o paranaense Roberto
Requião, que não conheço pessoalmente. Lembro-me
que certa vez há alguns anos, comprei uma briga com um velho amigo
e companheiro, por sua causa. Os tempos passaram e o tempo é o
remédio inexorável de todos os males, e este encarregou-se
de mostrar que o Requião é um homem sério, patriota,
nacionalista. Um homem público que está realmente comprometido
com as boas causas, sempre disposto a defender o Brasil e o seu povo,
em quaisquer circunstâncias. Como agora o faz, enfrentando com rara
coragem e determinação essa quadrilha, esse roubo oficializado
que são os pedágios. Concessões safadas, dadas por
funcionários do primeiro, segundo ou terceiro time, de governos
cobertos pela malandragem e safadeza, com contratos leoninos contra a
bolsa do povo e da Nação.
Deus te dê muitas forças, Requião. Na encosta da vida
onde me encontro, nesse cipoal de falsidades que tomou conta do País,
onde a mentira, a farsa, o engodo e a corrupção são
temas diários, é uma rara felicidade registrar que ainda
há homens como você.
Um grande ano novo, meu caro governador!
Geraldo Pereira, jornalista e membro do Sind.
dos Jornalistas de São Paulo e da ABI (Assoc. Bras. de Imprensa)
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