Memória
João Paulo Cunha

FLORESTAN, UM HOMEM DO POVO

Há pessoas que, quando morrem, deixam mais do que uma lembrança para os familiares e amigos:deixam um exemplo para o povo, uma lição para o país, um legado para a nação. Assim foi Florestan Fernandes, sobre quem a TV Câmara produziu um documentário a que já assistiram milhares de espectadores em todo o Brasil. Ao longo de 50 minutos, o vídeo conta a história de um brasileiro que nasceu pobre — condenado, assim, à penúria e à ignorância — mas que venceu as maiores adversidades para se incluir, por todos os méritos, entre os mais importantes sociólogos do seu tempo. "É o único grande homem da nossa geração", afirma o Professor Antônio Cândido, ele próprio um brilhante intelectual, o que torna o elogio verdadeira consagração para quem primou, a vida inteira, pelo despojamento e pela simplicidade.
Filho de uma empregada doméstica, logo cedo Florestan começou a lutar pela vida, certo de que a cada ser humano cabe construir o futuro que deseja. Foi engraxate e garçom — teve, pois, a experiência da pobreza, o sentimento da humildade, forças que nos encorajam o espírito e revigoram o ânimo. Não por acaso, dedicou-se a estudar o índio, o negro, o trabalhador do campo e da cidade — isto é, os brasileiros explorados, vítimas, desde sempre, da discriminação e do preconceito, da violência e da injustiça.Com a inteligência privilegiada e a cultura que aprimorou ao longo de décadas, escreveu 53 livros e fez do magistério uma das razões de viver, como professor das universidades de São Paulo, no Brasil; Columbia e Yale, nos Estados Unidos, e Toronto, no Canadá. Florestan Fernandes, de fato, profissionalizou a sociologia brasileira, quando pôs a ciência em que se tornou mestre a serviço do desenvolvimento e da justiça social a que o povo tem direito.
Já na maturidade, a trajetória pessoal de Florestan passa a confundir-se com o seu grandioso desempenho como cidadão, como homem público. Juntou, dessa maneira, a teoria à prática, a palavra à ação, o saber acadêmico à descoberta da realidade. Pelo Partido dos Trabalhadores, o sociólogo se elege duas vezes Deputado Federal, entre 1986 e 1994. É dele uma das mais importantes assinaturas na Constituição de 1988, como parlamentar que trabalhou não só na defesa da educação e da cultura, mas em todos os momentos do processo, em que se distinguia pelo valor dos ideais e pela grandeza das idéias. Abalado pela doença que o levaria à morte, o velho professor como que rejuvenesceu na luta que marcou a Constituinte, nas sessões que varavam a noite, na verdadeira maratona de estudos e debates com que a Câmara dos Deputados, mais uma vez, honrou a história do Brasil.
Sempre aberto ao diálogo e atento à voz dos companheiros, o ilustre político fez-se merecedor da estima dos colegas, do respeito dos adversários e da confiança da opinião pública.
No dia 10 de agosto de 1995, morria, aos 75 anos de idade, Florestan Fernandes. Morreu como sempre viveu, fiel às suas convicções e aos princípios morais de que nunca se afastou. Preso por ocasião do golpe militar de 1964, brigou com o amigo que lhe retirara o nome da lista de cassações; a fazer no exterior o tratamento que poderia devolver-lhe a saúde, preferiu continuar no Brasil, como cliente dos hospitais públicos a que recorrem o homem do povo, o brasileiro comum, o cidadão anônimo. Porque exatamente assim se considerava Florestan Fernandes: mais do que o grande sociólogo, o renomado professor, o insigne acadêmico, era um brasileiro simples, orgulhoso da sua gente e da sua terra, confiante em que nos destinamos a um futuro melhor, mais digno e mais justo. Esse, o Florestan Fernandes que nos fica como exemplo, o mestre que, no dizer de Antônio Cândido, nunca deixou de ser um homem do seu povo.

 

João Paulo Cunha - PT/SP
é Presidente da Câmara dos Deputados
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