Passeio
na cidade dos mortos
Esta casa é minha velha conhecida, já estive muitas e muitas
vezes para me despedir de amigos do peito, ou simplesmente conhecidos.
É a mais famosa residência dos mortos de nosso País.
Eu disse que era uma casa, afirmei depois, ser uma residência, em
verdade é uma cidade, grande cidade, majestosa, com habitantes
que fizeram a história do Brasil. Sua bela história, como
Luiz Carlos Prestes, Sobral Pinto, sua péssima história
como Arthur da Costa e Silva e Ernesto Geisel.
Passeio pelas suas alamedas, ouço o barulho do ônibus que
é intenso, da outra cidade apenas, demarcada pelas grades de ferro
e a murada que a cerca.
Aqui na cidade dos mortos, o silêncio é total. Ninguém
fala mal de ninguém. Não se ouve o disse-não-disse,
todos descansam e desfrutam de uma paz invejável. Como seria bom
se na outra cidade - a nossa cidade dos vivos - fosse assim também.
Da última vez que aqui estive, foi para me despedir de um irmão,
um amigo, um companheiro, enfim, de um homem na acepção
da palavra: Leonardo Moreira Leal. Num preito de saudade, de saudade imensa,
estou providenciando uma placa a fim de afixá-la no seu túmulo.
No túmulo de todo grande homem, deveria estar presente um registro
homenageando-o. Escrevi há pouco essas palavras: LEONARDO MOREIRA
LEAL - Aqui descansa um homem, um homem bom, amável e amigo. Desses
que nascem de muitos e muitos anos. Fui seu amigo, seu companheiro por
mais de meio século. E como foi bom sê-lo. Homenagem de Geraldo
Pereira.
Para se chegar ao túmulo de Léo, que está localizado
na penúltima ladeira do Cemitério São João
Batista, no Rio de Janeiro, passamos pelo mausoléu da Academia
Brasileira de Letras, é uma pequena cidade, dentro da Cidade dos
Mortos. Uma placa nos diz que Hermes Lima, mestre do Direito, primeiro-ministro,
na tentativa de implantação do parlamentarismo no Brasil,
conseguiu materializar o sonho dos nossos imortais. Ter o seu mausoléu!
Conheci Hermes Lima deputado federal, formava com João Mangabeira
e Domingos Velasco, a pequenina, porém, moralmente grande bancada
do Partido Socialista Brasileiro. Baiano, dono de invejável cultura.
Ministro do Supremo Tribunal, nomeado por João Goulart e cassado
pelo arbítrio militar. Pobre Brasil!
Há anos, passei uma manhã e uma tarde dentro do Mausoléu
dos imortais, colhendo informes para uma matéria jornalística,
que agradou muito os meus leitores e a mim pessoalmente.
Lembro-me agora que também acompanhei até este mausoléu
o grande brasileiro, o inesquecível mestre Alexandre José
Barbosa Lima Sobrinho. Uma multidão que não adentrou ao
mausoléu, nem poderia, se comprimiu do lado de fora cantando o
Hino Nacional e se fazendo presente com palavras de ordem em defesa do
Brasil. (...)
(...) Em pleno coração da Cidade Maravilhosa, todos os túmulos
são iguais, em mármore branco, com o nome e as datas de
chegada e saída de cada morador.
Os conhecidos vão se apresentando: Álvaro Moreira - Alvinho
- época houve em que seu apartamento em Copacabana, era o refúgio
dos perseguidos pela polícia de Filinto Muller. Com Eugênia,
sua esposa, formava o par de intelectuais mais corajoso e atuante do Rio
de Janeiro. Lembro-me muito de Álvaro Moreira, com Jorge Amado
e Oscar Niemeyer, dirigindo o semanário PARATODOS, órgão
literário da esquerda brasileira, na década de 50. Ajudei
muito na existência desse jornal.
Meu saudoso companheiro do América do Rio de Janeiro, como eu,
torcedor. Saudades de Marques Rebelo, o grande autor de "Marafa",
escritor de linha de Machado e Lima Barreto. Certa tarde, almoçando
numa churrascaria no bairro das Laranjeiras, perguntei-lhe: "Por
que vocês não elegem o Gilberto Freyre, um Vinicius de Morais?"
Ele com aquele jeito todo seu, piscando os olhos pequeninos, me responde:
"Tá doido? Você jamais verá um dos dois na Academia.
Um Vinicius com um copo de uísque, um Gilberto Freyre, com você
medindo as palavras pra falar com ele. Nunca!". A Academia tem dessas
coisas. O fato é que nem Vinicius nem Gilberto entraram para a
casa de Machado de Assis.
Sempre gostei de ver as obras de arte nos cemitérios. Ler os preitos
de saudades, umas comoventes como a frase perdida, solta no mármore,
despedida do esposo. "É minha Miguelina". Quem foi Miguelina,
como se chamava este esposo apaixonado?
Na Europa, é hábito passeios aos cemitérios, faz
parte, inclusive, do guia turístico de algumas cidades. Caminho
despreocupado entre os habitantes dessa cidade, o receio é com
os habitantes da outra cidade, que poderão estar de olho na minha
filmadora, na máquina fotográfica, se um desses tipos aparecer
por aqui, só Deus poderá fazer alguma coisa por mim.
Meu querido Lima Barreto tem um medalhão com sua foto. Há
anos lutei para que seu túmulo tivesse uma melhor aparência.
Lima Barreto como sofreu, como foi mal compreendido. Quem escreve um "Triste
Fim de Policarpo Quaresma", tem imortalidade garantida pelos séculos
e séculos.
Os conhecidos vão aparecendo e desaparecendo. Agora, estou com
o meu amigo Abelardo Barbosa, o popular Chacrinha. Ele recebe muitas visitas.Cheio
de flores está seu túmulo. Flores frescas. Vejo algumas
pessoas, gente do povo rezando para o popular comunicador. Aproxima-se
um casal maduro, toma nota do número da sepultura e diz que vão
fazer uma fezinha. "Já ajuda, né", parece que
já ganharam. Próximo ao túmulo do Chacrinha, está
o da Clara Nunes. Todo branco, branco bem branco é o seu mausoléu.
A presença da Umbanda nota-se logo através das homenagens
que lhe são prestadas pelos fãs. Mais adiante, aquele que
foi um dos maiores compositores de nosso País - Ari Evangelista
Barroso. Ele contempla a cidade dos mortos e dos vivos. Sua casa é
grande, espalhadas por ela as suas canções. Lembro de Ari
vereador do Rio de Janeiro, udenista, com Adauto Lucio Cardoso e Carlos
Lacerda, promoviam o peso pesado da UDN na Câmara Municipal.
Carmem Miranda está num local privilegiado, todos param diante
de sua casa, ela fica em frente à casa de Vicente Celestino e Gilda
de Abreu, o grande casal do rádio brasileiro das décadas
de 40 e 50. Verdadeira obra de arte é o túmulo de Santos
Dumont. Grande. Alto e belo. Cazuza também descansa em paz. Francisco
Alves - o Rei da Voz - tem o seu busto, o violão, a administração
do cemitério guardou, pois, quantos coloque, quantos serão
roubados.
Meus respeitos e minhas homenagens ao Marechal Mascarenhas de Morais,
comandante da FEB (Força Expedicionária Brasileira). (...)
Vou me despedindo dos mortos. Na alameda principal do Cemitério
São João Batista descansa Luiz Carlos Prestes. Seu nome
e os dados de nascimento e falecimento, coisa simples, projetada por Oscar
Niemeyer. Bem próximo de Prestes estão Costa e Silva e Ernesto
Geisel.
É possível que numa outra crônica, prossiga com os
mortos de ontem e de hoje.
Geraldo Pereira, jornalista e membro do Sind.
dos Jornalistas de São Paulo e da ABI (Assoc. Bras. de Imprensa)
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