Opinião
Emir Sader

O QUE VAI FAZER O BRASIL NO HAITI?

O Brasil já fez uma experiência similar, na República Dominicana, durante a ditadura militar, em 1965. Tropas brasileiras, dirigidas pelo general Meira Mattos, participaram, junto com as norte-americanas, da invasão daquele país, como parte de um golpe militar que derrubou o presidente eleito, Juan Bosch. Foi um capítulo vergonhoso na história do país.
Agora o Brasil se apresta a mandar tropas ao Haiti. O que o Brasil vai fazer lá?
Pode ser que não saibamos muito bem, mas os EUA sabem. Sua estratégia atual baseia-se nesse tipo de ação no exterior, tutelando países que consideram que não têm condições de se autogovernar. Justifica assim a necessidade de uma força imperial, se possível dividindo responsabilidades com outros países.
O governo de Aristide no Haiti não é igual ao de Bosch, na República Dominicana. Reposto no governo por Washington, ele se revelou ser distinto do padre da teologia da libertação, que havia galvanizado o apoio popular contra a ditadura de Papa e Baby Doc. Governou de forma ditatorial, com corrupção e fraude eleitoral, repressão contra os movimentos sociais e as forças democráticas que o haviam apoiado. Acabou criando uma guarda similar às da ditadura, até que um setor dessas bandas passou a se opor a ele e, aliado a forças remanescentes da época da ditadura, catalisou o descontentamento popular contra o governo de Aristide - em meio à deterioração econômica e social, acentuada pela suspensão das ajudas externas, pelas eleições fraudadas - e criou a situação que acabou levando à sua derrubada.
Com o pretexto de evitar um banho de sangue, tropas francesas e norte-americanas desembarcaram no Haiti, Aristide foi levado para fora do país e um governo provisório foi instalado. Tropas dos EUA se encarregam da ordem interna e já mataram dois haitianos. Fala-se em eleições só daqui a dois anos. Em suma, está-se tirando dos haitianos o direito de decidir sobre os seus próprios destinos - tenha Aristide renunciado, tenha sido seqüestrado ou tivesse de qualquer forma sido derrubado.
O Brasil não pode e não deve participar de um contingente de tropas que não tem mandato claro, com prazos definidos, subordinado a uma comissão de representantes das organizações democráticas. O Brasil pode até desejar isso e acreditar que, presidindo o contingente, possa zelar por esses interesses democráticos. Mas a presença prévia das tropas dos EUA e da França, sua inequívoca superioridade militar, a capacidade de ação política que têm e principalmente os antecedentes de intervenções do governo norte-americano, especialmente durante o período Bush, recomendam que o Brasil não entre nessa aventura. E que, ao contrário, aja em todos os organismos regionais, continentais e internacionais, para que seja entregue no mais breve prazo possível a decisão sobre os destinos futuros do Haiti. O papel dos outros países e dos organismos internacionais é o de apoiar o povo haitiano, e não substituí-lo, menos ainda mediante uma ocupação militar.

Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de "A vingança da História"