Contando História
Ayrton Correa

BATENDO TIJOLOS

Quatro, quatro e meia ou cinco horas da manhã. Não sei ao certo. Sei apenas que ouço vozes ao longe. A essa hora, sem nenhum outro ruído para concorrer, o som de vozes, naquela vila ainda pequena, pode ser ouvido nitidamente.
Da janela do meu quarto não dá pra ver o que está acontecendo. E nem é preciso, pois conheço de há muito esse ritual. Toda manhã. Todos os dias. Interrompido, apenas, com chuvas fortes.
Buscar barro, cortar capim. Bater, emparedar, enfornar e desenfornar tijolos. Espalhar, juntar, peneirar e guardar areia. Guardar na casinha. Casinha feita de tijolos e coberta por algumas folhas de telha, protegia da chuva e do sereno a areia que seria utilizada, nas manhãs seguintes, para untar a forma. Evitava que o barro ficasse grudado. Forma de madeira. Pesada.
Bater tijolos exigia força e prática. Bater com força e jeito o barro trazido da pipa, fazendo com que ele se amoldasse à forma. Fazendo com que as letras, se não me falha a memória, JMM, de Joaquim Mendes de Moraes, ficassem bem nítidas. O excesso do barro era cortado com o arquinho. Uma miniatura de arco para flechas.
Distribuídos lado a lado no chão, os tijolos ficavam ao sol para secar. Secos, eram emparedados. Formavam longas fileiras, separadas por corredores para circulação das "carrinholas". Espécie de carrinho próprio para o transporte do barro e do tijolo. Transporte interno. Do terreiro para o forno e deste para as pilhas, depois de queimados.
O barro vinha do barreiro em caçambas. Carroças rústicas e pesadas, puxadas geralmente por burros ou mulas. Usadas, também, para buscar o capim que servia de alimento para os animais.
O trabalho, como disse, começava cedo, antes do dia nascer, ainda escuro. As bancadas, mesas de madeiras grossas onde se batia o tijolo, tinham, cada uma, seu responsável: seu Zé, Élio, seu Oscar, Reni... Iluminadas à luz de lamparinas de querosene.
Trabalhava quase toda a família. Uns, desde cedo. Outros auxiliavam nas tarefas complementares, durante o dia. O oleiro levava uma vida dura. Ganhava por produção. Preocupados com os números. Quantidades. Quantidades com qualidade. Os tijolos tinham que ser perfeitos.
Nesse ambiente de muito trabalho sério, nós, crianças, encontrávamos espaços para diversão. Mergulhos nas lagoas do barreiro, bolinha de vidro, pião, passeio de carrinhola e carona na carreta do tratorzinho.
Nos finais de tarde, buscar os animais no campo, cortar capim, recolher e peneirar areia eram atividades que serviam para quebrar um pouco a rigidez das outras tarefas.
Os adultos, por sua vez, encontravam um pouco de lazer durante os dias da queima de tijolos. Revezavam-se para manter o fogo aceso e aproveitavam para as grandes trucadas à boca do forno. Valendo arroz com frango assado. Assim amenizavam, também, as preocupações próprias do dia-a-dia.
A olaria ficava na "rua de baixo" ou "rua da chácara", no fundo do quintal de nossa casa. Na rua do Joãozinho, do Sargento Santana, do seu Junqueira, do Carlinhos, do seu Élcio.
Havia uma outra olaria perto da chácara do japonês. Mas eu conhecia, mesmo, a de perto de casa.
Não só conhecia como tive a grata felicidade de participar um pouco da vida desse grupo de trabalhadores, ajudando-os em seus afazeres.
Eu não tinha a responsabilidade com horários ou freqüência. Ia quando queria. Ajudava para que o serviço terminasse mais cedo e meus amigos, Walter, Luizinho, Té e Dudu pudessem brincar. Ia pela recompensa de fazer parte daquelas famílias.

Ayrton Corrêa é aposentado e reside em São Paulo. Morou 30 anos em Itapevi. E-mail: ayco@superig.com.br.