Contra-Ponto

Saudades dos tempos idos e vividos


A Semana Santa, era Santa de verdade. As emissoras de rádio transmitiam músicas clássicas. Nas igrejas, como nas residências, as imagens eram cobertas com um pano roxo. Na quinta e sexta-feira Santa, comer carne? Nem pensar. Bebidas alcoólicas, também não. Lembro-me de minha vó: "Geraldo, hoje é sexta-feira Santa, fale baixo". nos cinemas, somente um filme: "Vida e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo", chorei muito vendo os sofrimentos de Jesus.
Na zona do meretrício, o respeito era idêntico ao das casas de família. Os bares não funcionavam. Não se amava nesse dia, as mulheres, todas, se guardavam em respeito ao Senhor. Certa sexta-feira Santa, vi uma rapariga nova na zona do meretrício. Chamei-a para beber, parece que estou ouvindo a resposta daquela bela mulher. "Virgem Maria, mãe de Deus, Jesus que te perdoe, você é louco, esse menino".
Em Vitória de Santo Antão, Pernambuco, onde nasci, minha primeira professora chamava-se Eudóxia. A escola ficava no salão paroquial da igreja matriz, e, como não havia banheiro, usava-se o mais próximo, o da casa da professora. Para usá-lo o aluno apanhava uma pedra que ficava sobre a mesa da professora. Se a pedra não estivesse no seu lugar, significava estar o banheiro ocupado. Comunicação simples e prática.
Às 10 horas ela perguntava ao aluno escalado: "Que horas são?", ele respondia "São 10 horas". Ela lavantava-se e dizia: "Hora do lanche".
Parece que estou vendo a professora Eudóxia: cabelos quase longos, pretos, olhos lindos, vivazes, muito corada, séria, com uma seriedade amável, não transmitia medo, mas compreensão, respeito, disciplina. Andar firme, de elegante firmeza, não se ouvia os seus passos. Era nova, não tinha mais de 28 anos, solteira, tinha por toda a classe, um carinho muito acentuado. Quando nos chamava a atenção, o fazia de maneira maternal. Dona de uma voz, padoxalmente, severa e meiga ao mesmo tempo. A severidade era para exigir os deveres bem feitos e a tabuada na ponta da língua, e a meiguice por compreender as nossas idades, o nosso mundo.
Lembro-me de certa feita, era noite, tia Raminha me levou à sua casa, queria saber "como eu estava". Recebeu-a com alegria, por saber que não estava sozinha, e, carinhosamente passou as mãos nos meus cabelos e disse com a máxima seriedade: "Minha responsabilidade é muito grande, toda a classe tem que passar de ano, eu confio em todos. O Geraldo está indo muito bem". Alisou novamente os meus cabelos, e, sobre as suas mãos colocou a minha. Saímos. No outro dia, ganhei um caminhãozinho de madeira que há meses estava namorando.
Ainda sobre a minha professora Eudóxia e seus profundos ensinamentos (tão necessários e indispensáveis nos dias de hoje): "Quando estiver sentado no banco da igreja assistindo à missa, no bonde ou no ônibus, dêem o lugar aos mais velhos. É bom também, nunca esquecer de ajudar as pessoas necessitadas. Amar a Deus sobre todas as coisas. Não responder aos mais velhos, nem aos pais. Ser obediente. Não falar mal dos colegas, ser amigo de todos. Ser bom esposo, bom pai, bom filho, bom vizinho. Vocês não esqueçam isso nunca".
Coisas simples, ditas sempre em termos brandos, com uma doçura gostosa e que para sempre ficou registrada na minha memória, na memória de todos os alunos que tiveram a felicidade de tê-la como professora.
Lá na casa da minha vó, o café era torrado e batido no pilão, na maioria das casas, também . Me parece que o nosso masi saboroso. É que minha vó colocava no tacho os grãos, junto com açúcar preto, em pedaços médios, para derreter por igual. O fogão a lenha, abundante, se encarregava de fornecer uma quentura apropriada, e eu aproveitava a cinza dentro dele, jogava grãos de milho, em instantes ouviam-se os ploc, ploc, ploc, era uma festa de pipocas para fazer o meu encantamento. Quando a "liga" do café estava no ponto, colocava-se sobre as tábuas, no sol para secar. O restante eu me encarregava de fazer: socava no pilão com batidas compassadas, para não perder um só grão, e ter uma bebida forte, como todos gostavam.
A feira, de quase um quilómetro, se medissem todas as suas extensões. A da venda de animais, me fascinava, bois, vacas, bezerros, cavalos, éguas, burros, jegues, cabras, cabrito, carneiros, veados, a outra, de galinha, galos, pintos, frangos, guiné, pavão, peru, preá, era um mundo de poesia.
No "rancho", guardava-se os cavalos, do mesmo modo como hoje se guardam os automóveis. Nas compras de bois, cavalos, vacas, burros, jegues, havia o trabalho de ferrá-los com as iniciais do novo dono. O animal sofria muito. Eu não gostava de ver o seu sofrimento.
E o pregão ansiosamente esperado: "Rolete de cana, de cana-caiana, a um tostão. Chora menino prá mamãe comprar". Um cacho de roletes tinha em média 60 rodelas, era açúcar puro. Como esquecer a feira da carne de porco. Centenas de barracas expondo o seu único produto - o porco - dele se aproveitando tudo. Praticamente não havia óleo de cozinha, era banha, e, para se fazer a banha, compava-se o toucinho e deste, sendo um pouco mais magro, fazia-se o torresmo, gostosíssimo. As tripas do porco no feijão, substituia a carne, e desse animal vinha o sarapatel, que, de tão gostoso que é, abreviou muitas vidas, impossível não repetir o prato.
Em cada esquina, uma banca passando o jogo do bicho. Os banqueiros eram todos conhecidos. Às quatro da tarde ia se ver o sorteio. Tudo sério, tudo honeto. Sem esconderijo. O grupo pagava 24 a dezena 120 e a centena 1200. O cambista ganhava 20% de comissão. O jogo do bicho empregava um considerável número de pessoas. No São João as comidas típicas de raríssima sabor. Canjica, pamonha, pé-de-moleque, bolo de milho, fubá, era um trabalhão, pois não existiam eletrodomésticos. Tudo era manual. Na cozinha nessa época minhas tias todas trabalhavam no fazer esse mundão de coisas gostosas. Não conhece uma só cidade nosrdestina que não tivesse as suas fabriquetas de sapatos e tamancos alpargatas. Na minha cidade, elas prokiferavam. Em Campina Grande se faziam as mais belas botas que vi em toda a minha vida. Eram verdadeiros artistas. Aproveitando os pneus já usados pelos automóveis, eles serviam para os solados dos sapatos e alpargatas. Recebiam desenhos feitos na ponta de uma faca, amoladíssima por mão parece que criada para esse trabalho. Quantas e quantas vezes passei horas e horas admirando estes artistas, a habilidade de suas mãos na criação de desenho, tudo de maneira simples e de rara beleza. Quantas e quantas vezes levei essas botas aos meus filhos no Rio de Janeiro. Eles usavam anos e anos, depois passavam para os primos usarem outro tanto. Nessa época, coonialismo cultural ainda não tinha chegado aos pés do nosso povo, não dominava os nossos hábitos, os nossos costumes. Vivia-se o Brasil mais brasileiro, fiel às suas origens, seguindo a sua própria cultura, cultura que nos engradecia e ajudava ao seu progresso.
Até a próxima, leitor amigo, com saudades dos tempos idos e vividos.

Geraldo Pereira, jornalista e membro do Sind.
dos Jornalistas de São Paulo e da ABI (Assoc. Bras. de Imprensa)