| Ayrton
Correa
AOS
OLHOS DE HOJE
"Era uma casa muito engraçada, não tinha
porta, não tinha nada..." Esta canção do Toquinho
me fez lembrar de uma casa parecida com todas as casas do meu bairro.
Começo de bairro. Uma casa engraçada. Engraçada,
por não ter quase nada e que, ao mesmo tempo, nada faltava.
Não tinha porta de madeira entalhada, nem detalhes em vidro e muito
menos fechadura. Não tinha janela de ferro ou alumínio.
Nem vidro fumê.
Só porta feita em casa, na maioria das vezes. Com tramela para
mantê-la fechada, apenas para o vento não bater. Janela também
feita em casa. Verde, azul, amarela. De tempo em tempo, mudava de cor,
pra não enjoar os olhos. As mais caprichadas tinham venezianas
e vidraça, na maioria das vezes, sem vidro.
Engraçada porque não tinha banheiro dentro. Onde já
se viu banheiro dentro! Total falta de higiene. Ficava lá no fundo
do quintal, o mais longe possível da casa. Perto da horta, da bananeira,
do chiqueiro, do galinheiro.
Engraçada porque um balde com bico de regador, dependurado no caibro
do teto do banheiro, fazia as vezes do chuveiro. Água quente, se
quisesse, tinha que ser trazida da cozinha. Em chaleiras. Ou, quem preferisse,
podia tomar banho de bacia. De "baciona". Água jogada
com caneca no alto da cabeça. Pra pegar o corpo todo. Rápido,
sem desperdício. Uma casa muito engraçada porque as crianças
tomavam banho no tanque de lavar roupa ou no latão d'água,
perto da horta.
Engraçada de se ver a casa iluminada pela luz do lampião
de pavio e manga. Dependurado no batente da porta da cozinha. Alumiando
dois cômodos ao mesmo tempo. Pretejando a madeira com sua fumaça
que se misturava com o picumã do teto. Depois perdeu a graça
para o lampião de gás, que perdeu a graça para a
luz da Light.
Não tinha televisão, porque não tinha energia elétrica.
Depois, tinha energia e não tinha televisão. Falta de energia
era apenas um pretexto. Mas tudo bem, criança não entendia
dessas coisas.
Era uma casa muito engraçada. Tinha um rádio de madeira
amarelo claro. A Voz do Brasil, novelas e Juvêncio, o Justiceiro
do Sertão. Ah! ouvia-se, também, a Hora da Ave Maria.
Uma casa muito engraçada porque no quintal tinha feixes de lenha
trazida do calipal. Atrás da porta da cozinha, também. Lenha
para o fogão. O fogão de lenha com sua chaminé despontando
no telhado. Fio fino de fumaça o dia inteiro. Fogão de lenha
que um dia perdeu a graça para o fogão de carvão
de quatro bocas e forno. Bom para torrar pão amanhecido. Bom para
o carvoeiro que ganhou mais um freguês. Bom para mostrar que o progresso
estava chegando.
Era uma casa muito engraçada, não tinha móveis. Roupa
dependurada no cabide de parede. Feito em casa. Nem geladeira. A carne
de porco conservada na própria banha que enchia a lata de vinte
litros. Lata de querosene Jacaré. A manteiga Viaduto conservada
na água. No varal, no calor do fogão, lingüiça,
carne seca e toucinho para defumar. Muito engraçada, essa casa,
sem cerca e sem portão. Com cachorros, gatos, patos, galinhas e
um monte de filhotes passeando livres pelo quintal...e por dentro da casa.
Era uma casa muito engraçada. Aos olhos de hoje, esquisita, até.
Uma casa comum. Igual à maioria. Feita em mutirão. Com muito
esmero. Era uma casa. Uma casa muito engraçada...
Ayrton Corrêa é aposentado e reside em São Paulo. Morou
30 anos em Itapevi. E-mail: ayco@superig.com.br.
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