Contra-Ponto

Nossa Academia é nota 10!
(Será?)


Estou alegre e muito feliz com a nossa Academia Brasileira de Letras, a ABL. Quero mesmo congratular-me com a nova mentalidade, com os novos dirigentes daquela famosa casa da cultura de nosso País. Até que um dia acordou, deu o ar da graça, de uma graça, agora sim, merecedora dos meus respeitos e das minhas homenagens. Continue assim, aberta para os grandes acontecimentos, deles participando, mostrando à Nação que ela está viva e acompanha com vivo interesse os problemas do Brasil, da sua cultura, da liberdade.
Há 12 anos escrevi um artigo em que afirmava: "A Academia Brasileira de Letras, em certa época da nossa história, reuniu a nata da intelectualidade brasileira, muito embora, dela não fizesse parte, nem podia, nem deixavam, os intelectuais de esquerda. De 1935 a 1945, eles estavam presos, foragidos ou exilados, na sua imensa maioria."
Enquanto os seus inimigos estavam numa dessas situações, Getúlio Vargas era eleito e ganhava em vida a imortalidade.
Juscelino Kubitschek poderia ter ingressado na Academia, por aclamação, se para ela tivesse se candidatado, quando no exercício do cargo de presidente da República. Deixou a oportunidade escapar. Esqueceu o velho ditado: "Rei morto, rei posto". O saudoso presidente procurou ingressar na Casa de Machado de Assis, quando a situação lhe era completamente oposta.
O Brasil estava vivendo o regime militar, com o arbítrio instalado, os cárceres superlotados, a censura se fazendo presente em todos os sentidos, o medo e a covardia se ampliando, a delação e a deduragem campeando as direções, com uns, fracos de coragem, outros, fracos de caráter, para ambos, no entanto, de uma maneira ou de outra, tudo era válido, inclusive a delação, condição última do ser humano.
Com o próprio Juscelino cassado, preso, humilhado que foi, inclusive durante meses, quando respondia a um desses IPM (inquéritos) qualquer, dirigido por um coronel do Exército, que lhe fazia as perguntas mais primárias e mais cretinas, e o ex-presidente com uma paciência digna de registro, respondia todas, das 8 às 12 horas. Quando terminava o interrogatório, Juscelino voltava para a sua casa no bairro de Ipanema, mal chegava o telefone tocava, era para se apresentar às 13 horas no quartel da PM do Exército - a casa da tortura - na rua Barão de Mesquita, no bairro do Tijuca. Foram dois ou três meses nessa tortura psicológica, disse-me certa vez, revoltadíssimo, o seu advogado, o grande e inesquecível Sobral Pinto.
A história da Academia Brasileira de Letras, diante dos graves problemas de nossa Pátria sempre foi a do silêncio total. O mundo pode vir abaixo, a nossa Academia continua impassível. Dela não se tem notícia de ter levantado a sua voz uma única vez contra o arbítrio, quer o militar de 31 de março, colocando o País sob o signo da censura, prendendo intelectuais, inclusive me parece alguns acadêmicos, quer em 1937 quando Getúlio Vargas deu o golpe e mandou para a prisão de Ilha Grande, a nata da intelectualidade brasileira, a maioria de esquerda, entre eles Graciliano Ramos, Jorge Amado, Hermes Lima, Abguar Bastos, João Mangabeira e outros. Os que não foram para Ilha Grande, ficaram perambulando pelas masmorras do Rio de Janeiro.
Hermes Lima tarde viria a ser acadêmico, foi cassado pelo golpe militar de 64, quando exercia o cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal.
Acredito que a Academia não se manifestou a respeito desse triste episódio. Nem sei se o próprio acadêmico cassado, nas famosas reuniões das quintas-feiras, tenha quebrado a monotonia daquele tradicional chá dos acadêmicos, denunciando o ato covarde, mesquinho e arbitrário, dos donos do poder, suspendendo-lhe os direitos políticos, bem como os de seus colegas Evandro Lins e Silva e Vitor Nunes Leal.
Antes da consumação desse pobre ato assinado pelo marechal Arthur da Costa e Silva, presidente da República, o grande Sobral Pinto, com a sua coragem, seu desassombro, seu profundo amor ao Direito, à Liberdade e ao Brasil, escrevia ao todo-poderoso presidente:
"O amor que tenho a este País, de que é testemunho toda a minha vida, leva-me a dizer ao Chefe de Estado, que assinou e promulgou o ATO INSTITUCIONAL nº 5, que se V. Exa. tirar do Supremo Tribunal Federal os ministros que até agora honraram pela sua bravura e pela sua independência, será firmado o atestado de óbito do Poder Judiciário do Brasil (...), a condição para ficar como Juiz do mais alto Tribunal do País ou para ser investido nesta superior Diginidade será a de colocar a sua inteligência, a sua cultura e a sua vontade a serviço dos militares e, principalmente, a serviço de V. Exa. e de seus colaboradores no exercício do Poder Executivo. Reflita, Sr. Presidente, quem sentirá a honra e prazer em permanecer no Supremo Tribunal Federal ou para ele entrar depois que V. Exa, com seus poderes ditatoriais, terá arrancado de suas cadeiras juízes que, até agora, procuraram com os seus votos, resguardar as liberdades dos seus concidadãos (...). A consciência livre do País, porém, acompanhará, até o final de sua vida, o ato de reprovação geral (...)."
Dentro desse quadro, se a Academia fosse uma casa que no mínimo zelasse pelo respeito ao direito de expressão, se a Academia tivesse a diginidade, a coragem de protestar contra a censura violenta que se abateu sobre todos os que escrevessem, com os censores da ditadura militar impedindo violentamente, os escritores, jornalistas, de se manifestarem, com as prisões superlotadas por muitos deles. Se a Academia tivesse erguido a sua voz poderosa, poderosa voz, teria dado uma contribuição imensa na luta heróica, travada entre os homens livres conrta os prepotentes. Entre o reinado do Direito contra o império do arbítrio, entre a dignidade de Sobral Pinto e a pusilanimidade de um Buzaid, de uma Gama e Silva.
Uma casa como a de Machado de Assis precisa se movimentar. Falar. Mostrar que está viva, atualizada com os problemas da Nação.
Meu apelo público para mestre Barbosa Lima Sobrinho, decano da Academia, para Bernardo Elis, Dias Gomes, Antônio Houaiss. Não vou apelar para nosso Jorge Amado, há muito que ele deixou de ser o amado escritor brasileiro.
Na inércia proposital ou acovardada em que se encontra, concernente aos problemas do Brasil, a Academia Brasileira de Letras marcha para o ostracismo e para o descrédito total, perante os seus admiradores, entre os quais me incluo. O que é uma pena, diga-se de passagem.
É muito importante para o nosso povo, para o nosso País, que a ABL esteja viva, desperte e acompanhe a vida cultural e a defesa da livre manifestação de pensamento, como é sua obrigação.

Geraldo Pereira, jornalista e membro do Sind.
dos Jornalistas de São Paulo e da ABI (Assoc. Bras. de Imprensa)