Anthony Garotinho, secretário de Estado de Segurança Pública do Rio de Janeiro
Opinião
Izaías Almeida*

A PESQUISA, O GAROTINHO
E A HIPOCRISIA

Em pesquisa divulgada essa semana, o IBGE, através de seus Indicadores Sociais, revela que entre os anos de 1980 e 2000, no Brasil, 2,07 milhões de pessoas foram vítimas de violência. É bom repetir: quase dois milhões e cem mil pessoas foram vítimas de violência em nosso país em 20 anos. Toda uma população de várias cidades do mundo. E mais: desse total, 600 mil pessoas foram vítimas de homicídios. Foram assassinadas, simplesmente. Em média, 30 mil homicídios por ano. E ainda há quem diga que somos um país de índole pacífica, o país do jeitinho, o maior país católico do mundo, etc, etc, etc... como se esses lugares comuns, esses falsos truísmos, funcionassem como uma espécie de purificadores de consciências...
Dias antes, o ex-candidato a presidente da República (e talvez futuro) Anthony Garotinho, apareceu nas televisões de todo país, investido na sua atual condição de Secretário de Segurança do Rio de Janeiro, para interrogar o provável assassino do casal de americanos da Shell: “foi você que matou o casal?”, “foi, sim senhor” respondeu o caseiro; “com aquela arma ali?”, “foi, sim senhor”, respondeu novamente o caseiro. Do ridículo à desmoralização não se passou uma semana. Posto em sossego em Angra dos Reis, o Secretário/Sherlock teve que viajar às pressas para a cidade do Rio de Janeiro, pois uma guerra de traficantes botava a cidade mais uma vez de pernas para o ar. E teve que pedir ajuda federal.
Os dias passam, a violência continua por todo o país, cada vez maior, a mídia faz disso um grande espetáculo, ignorando o verdadeiro sofrimento do povo, os “especialistas” dão sua opinião (professores, sociólogos, políticos, analistas disto e daquilo), todos enfiados em seus confortáveis escritórios ou apartamentos e os 600 mil brasileiros continuam sendo mortos à razão de 82 por dia, 2460 por mês, 29.520 por ano... Enquanto isso, os anunciantes e seus fiéis escudeiros publicitários continuam a nos enfiar goela abaixo as excelências do produto tal, do serviço qual, da última novidade tal e qual. O paraíso da globalização e do consumismo a invadir o Iraque da nossa miséria material e espiritual.
Haja saco para agüentar tanta hipocrisia. Nada como um povo extremamente religioso e semi-analfabeto, ignorante de seus direitos e alienado da sua capacidade de pensar para manter nos principais centros de decisão do país alguns dos homens mais cínicos e incompetentes que possuímos. Aliás, a partir desse ponto de vista (para o qual alguns mais uma vez me chamarão de ingênuo ou mal informado), devo dizer ao Secretário Garotinho que ele não deve desistir de seus intentos. Ele tem o perfil de um grande patriota.
Hipocrisia, a que nos reduzistes!

* Izaías Almada é escritor e dramaturgo.
Fonte: Revista Caros Amigos, 19/04/2004
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