| Elioenai Piovezan*
Educar
para quê?
O senso comum diz que "é preciso estudar para ser alguém na vida".
Assim, muitos pais ainda exigem que seus filhos vão à escola e aprendam.
Eles querem acreditar que a freqüência e a matéria em dia garantam aprendizagem
aos seus filhos. Mas, será que a escola ensina realmente o que o aluno
precisa aprender? Aliás, o que o aluno precisa aprender? Sabemos que em
diferentes momentos da história os sistemas de educação (leia-se o governo)
valorizaram ora a técnica de ensino ora o conteúdo. O professor era o
centro da aula e o aluno recebia o conhecimento de forma passiva e mecânica.
Com o advento de novas tecnologias e da redemocratização do País, na década
de 80, o sistema passou a exigir das escolas uma educação que preparasse
o aluno para o mundo do trabalho. Ler e interpretar manuais de instrução
e realizar operações matemáticas elementares tornaram-se uma preocupação
quase doentia. Mais recentemente, o governo estadual, tem se valido de
gráficos para mostrar avanços e retrocessos dos alunos e criar classificação
para escolas "exemplares" (azul e verde), escolas "medianas" (amarelo)
e escolas "problemas" (laranja e vermelho), numa clara demonstração de
segregação e punição ao trabalho docente e à realidade sócio-econômica
e cultural do aluno e sua família. A "saída" encontrada pelo governo para
o alto índice de reprovação foi criar um sistema de promoção automática
ou projetos como Verão, para forçar a ida dos alunos à série seguinte
sem levar em consideração o conteúdo assimilado. Verdadeiros tratados
foram escritos para convencer educadores e a sociedade de que a educação
não podeser "conteudista". Concordo, mas a educação também
não pode visar apenas "habilidade" e "competência". O conteúdo deve ser
assimilado de forma crítica, nunca passiva, e a metodologia (formas de
ensinar) deve garantir a participação do aluno na construção do conhecimento.
O professor deve ser, por sua vez, o mediador entre o aluno e o saber,
levando em consideração sua experiência de vida e a dos alunos. A crítica
do conteúdo deve permitir que o aluno se posicione na sociedade como ser
individual (valores, habilidades, ética) e coletivo (respeito mútuo às
diferenças culturais, interação e intervenção social para transformar
seu próprio meio).Para tanto, ele precisa compreender aspectos da longa
jornada humana em busca de seu auto-aperfeiçoamento, da origem das sociedades
e dos interesses em jogo na luta de classes, dos fatores que permitiram
os avanços tecnológicos de que hoje desfrutamos (será que desfrutamos?).
*Elioenai Piovezan
é professor de Língua Portuguesa
e Jornalista Profissional
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