| Ayrton Correa
DOU-LHE
UMA...
DOU-LHE DUAS...
DOU-LHE TRÊS...
A praça da matriz ...iluminada. As bandeirinhas de papel de seda
esvoaçam aos ventos. As barracas de madeira e enfeitadas com ramas
de bambuzinho completam o quadro. Pedro, Dito, Eugênio, Nicanor,
Moia...festeiros, dentre muitos outros. De um lado para outro, cuidando
dos detalhes finais.
Dou-lhe uma...dou-lhe duas...dou-lhe três...vendido para aquele
cavalheiro ali. O Lamparina, do alto da barraca do leilão, aponta
o dedo para "aquele cavalheiro ali" que, todo orgulhoso, vai
buscar a prenda que acaba de arrematar.
O leilão termina. A barraca se transforma em coreto. A banda ocupa
seu lugar. A Corporação Musical Mércia toca. Sem
amplificadores, soprados a plenos pulmões, os instrumentos espalham
no ar o som mágico das marchinhas, valsas e dobrados. A percussão,
com seus pratos brilhantes e couros esticados à medida, marca a
cadência das melodias. O foguetório ilumina os céus.
Lá no fundo, a mocinha anuncia aos gritos os últimos números
da barraca do coelhinho. Vai correr! Vai correr ! E o coelhinho, assustado,
vacila entre as casinhas numeradas, procurando um lugar para se esconder.
Ali perto, alguém se esgoela para ser ouvido. Vinte e três...treze...pingo
no pé, nove é...pai do saco, noventa...Deu aqui ! Grita
lá na ponta um felizardo. Conferindo...não desmarquem suas
cartelas. Pode pagar...
Na barraca dos comes e bebes (Ah!, essa sim dá gosto !), crianças,
nos sentimos importantes sentados com nossos adultos às mesas rústicas,
saboreando os deliciosos petiscos servidos pelas festeiras. Lá
fora, as pessoas passam e se repetem como que num carrossel.
Enquanto isso, no meio da multidão, o menino olha para cima, cobiçando
a prenda amarrada na ponta do pau-de-sebo. Aguarda ansioso pela hora da
escalada. Subida lenta e difícil. Nem na metade e já desce
como um corisco. Volta para a fila...vai tentar de novo. Não desiste.
Em sua inocência de criança, parece pressentir que a vida
lhe reserva muitas dificuldades. Tem que aprender a não desistir.
Hi ! Lá vem a menina vendendo correio elegante. É a chance
de uma declaração anônima que a timidez impede fazer.
Será que ela não conta quem mandou a mensagem ? Esta dúvida
fica. Frases trocadas, encontros marcados. Não mais que isso. Outros
bilhetinhos, outros encontros marcados e...não mais que isso.
Atenção ! O rapaz de camisa branca e calça azul oferece
para a moça de saia xadrez e blusa vermelha. É o alto-falante
da torre da igreja, lá em cima, perto do sino, anunciando que alguém
está oferecendo uma música para alguém. O chiado
da agulha no disco quase "furado" de tanto tocar se antecipa
à melodia. Dois corações, com certeza, não
ouvem chiado algum. Apenas a emoção. A emoção
de uma música, por um momento, só deles.
O alto-falante anuncia a última rodada da tômbola, a última
corrida do coelhinho. Os sinos vão marcando o avançar da
noite. As luzes vão sendo, aos poucos, apagadas. A fogueira recolhe
suas chamas. A praça da matriz...vazia.
Ayrton Corrêa é aposentado e reside em São Paulo.
Morou 30 anos em Itapevi. E-mail: ayco@superig.com.br.
|