| Contra-Ponto |
![]() Leonel Brizola O
Rio Grande do Sul sempre foi palco de guerras entre os federalistas e os
chimangos. José de Oliveira Brizola era federalista. Usava sempre
um lenço vermelho no pescoço como todos os maragatos. Obedecia
à liderança de Leonel Rocha. Era tropeiro, tinha quatro filhos,
o mais novo com apenas um ano de idade chamava-se Itagiba.José Oliveira Brizola foi assassinado e atiros em 11 de outubro de 1923. Comandados pelo capitão chimango, Pedro dos Santos, os soldados invadiram a sua casa, quebraram tudo e o levaram. Dona Oniva, sua esposa, com o pequeno Itagiba no colo, acompanhou por um quilômetro os assassinos do seu esposo. Itagiba estava com um ano de idade, quando essa tragédia se abateu sobre sua família. Itagiba nasceu em 22 de janeiro de 1922, no lugarejo de Cruzinha, município de Carazinho, distante 275km da capital rio-grandense. Ele gostava de brincar de espada, e dizia que era Leonel, gritava o seu nome. Um ano após foi batizado com o nome de Leonel. Quem o batizou foi a irmã e também madrinha, Francisca. Aos dois anos de idade, passou a chamar-se Leonel de Moura Brizola. Com a morte do pai, as coisas se complicaram. Garoto pobre, Leonnel permanecia boa parte do tempo na estação ferroviária esperando os trens, para ganhar algum dinheiro a fim de ajudar em casa, levando as malas dos passageiros. Sempre foi um garoto observador, estudioso e trabalhador. O Colégio Fagundes dos Reis, onde estudou quando tinha 7 anos, merecia muitas críticas suas. A irmã-madrinha aconselhou-o e ele seguiu o conselho com muita disciplina: "Cresce, te mete na política". Conselho que o acompanhou até a noite de 21 de junho, quando ele de nós se despediu, às 21h20, vítima de um enfarte de miocárdio, no Hospital São Lucas, em Copacabana, na Cidade Maravilhosa, capital do Rio de Janeiro, Estado que ele governou por duas vezes. Com 14 anos, sempre pensando no futuro, deixou Carazinho e foi tentar a vida em Porto Alegre. Não tinha dinheiro para pagar a passagem de trem. A Prefeitura, por ato do prefeito, deu-lhe uma passagem de "segunda classe para o menor pobre Leonel Brizola". Em Porto Alege, ele disputou uma vaga, vaga disputadíssima, na Escola Técnica de Agricultura. Foi o aluno melhor colocado. A Escola tinha boa alimentação, bons professores e bons quartos. Seu primeiro mandato eletivo ele o ganhou em 1946, quando foi eleito deputado estadual pelo PTB, teve 3.800 votos. Passou a dirigir a ala jovem do partido. Formou-se em Engenharia pela Universidade do Rio Grande do Sul, em 1949. Nesse ano, conhece pessoalmente Getúlio Vargas, numa propriedade de João Goulart. Getúlio ficou impressionado com o discurso do jovem deputado Brizola. Ainda nesse ano, conheceu uma moça chamada Neuza Goulart. Comunica à irmã-madrinha, Francisca, esse namoro dizendo: "Eu sou pobre, ela é rica". A madrinha o encoraja: "Mas tu tens o teu valor, o teu diploma". Em março de 1950, casa-se com Neuza e desse casamento nascem os filhos José Vicente, João Otávio e Neuzinha. Getúlio Vargas foi o padrinho. Reelegeu-se deputado estadual em 1950 (em 1949, perdera a eleição para prefeito de Porto Alegre. Em 1952, é secretário de Obras do Estado no governo Ernesto Dornelles. Deputado federal em 1954, e em 1955, prefeito de Porto Alegre, para em 1958 eleger-se governador do Estado. Segundo a irmã-madrinha, Brizola "não era nem capitalista, nem socialista. Era independente". Como governador do Estado, a sua meta principal foi a Educação. Construiu 5.902 escolas, 278 escolas técnicas e 131 ginásios para escolas normais. Orgulhava-se desses dados. Nacionalista convicto, com rara coragem encampou as empresas americanas Companhia Elétrica Rio-Grandense, que era filial da American and Foreign Company e a Companhia Telefônica Rio-Grandense, subsidiária da International Telephone and Telegraph (ITT). De armas na mão, junto com o povo, garantiu a posse do cunhado na presidência da República, João Goulart, em 1960. Com o golpe militar de 1964, exilou-se no Uruguai, depois de tentar a reação sem sucesso no seu Estado. Volta ao Brasil com a anistia em 1979. Funda o PDT, depois de perder no Judiciário a sigla do PTB, por influência do general Golberi, numa jogada suja no Tribunal, essa sigla foi para as mãos da deputada Ivete Vargas, amiga dos militares. Disputa as eleições, se elege governador do Estado do Rio de Janeiro por duas vezes. Leonel de Moura Brizola não conseguiu realizar o seu maior sonho: ser presidente da República. Por três vezes disputou e perdeu. Ganharia do Collor, caso Lula tivesse aberto mão da disputa, estou absolutamente convicto. Neste sentido fez um apelo dramático ao Lula para que ele desistisse. Até porque ele "era mais velho", aquela era a sua "grande oportunidade". Não foi entendido. Assim como Getúlio, Brizola foi um caudilho? De certa forma sim. Sem a sabedoria daquele. Getúlio pontificou no tabuleiro da política brasileira, como o seu grande mestre. Antecipava-se como ninguém, e com rara perfeição armava as jogadas, preparava os lances e fazia os gols importantes que decidiam a partida. Alguns desses gols foram de letra, como o feito em 1937, quando os militares decidiram dar o golpe com ele, ou sem ele, ou contra ele. Tornando-se contra a vontade deles o seu chefe! O que foi bem menos mau. Se Brizola tivesse estudado a fundo a vida de seu líder, tivesse seguido suas iluminadas lições, teria sido presidente da República, possivelmente mais de uma vez. Em Brizola sobrou seriedade, principalmente de princípios. Ele se apegava de tal maneira ao cumprimento do Programa do partido, que de certa feita expulsou três governadores - e estava certo -, estava certo? Getúlio jamais faria isso. Não os perderia. Longe de amedrontar os futuros picaretas, para depois provocá-lo propositadamente, e safadamente ferir os princípios do Programa a fim de serem expulsos e ganharem a liberdade para se locupletarem a grosso e a retalho. Dominar um Osvaldo Aranha, um João Neves da Fontoura e tantos outros era muito mais difícil do que lidar com um Marcelo Alencar, um Saturnino Braga, um César Maia, um Miro Teixeira ou um Garotinho e esposa. Não que Getúlio não tivesse princípios, os tinha. Principalmente em defesa da Pátria e do povo, conforme muito bem me acentuava certa tarde após almoçar em sua residência o nosso estimado e saudoso mestre Barbosa Lima Sobrinho: "Cada dia que se passa, eu acordo mais getulista. Pois Getúlio Vargas foi o único presidente que realmente defendeu o Brasil e olhou para os trabalhadores". Eu imagino Brizola chegando no Céu encontrando Getúlio, Prestes, Darcy, Euzébio, Barbosa Lima, Aureliano, Andrada Serpa, Nelson Werneck Sodré e outros patriotas, contando aos mesmos a zorra que estamos vivendo. Companheiro Leonel de Moura Brizola! Presente! * Geraldo Pereira, jornalista e membro |