Opinião
Elioenai Piovezan*

Municipalização e concurso

A idéia de municipalização do Ensino Fundamental (1ª a 8ª série) começou infelizmente por Itapevi. Infelizmente porque não houve o debate democrático, a consulta popular ou a decisão consciente a partir dos maiores interessados nas questões educacionais, que são os professores, os alunos e os pais dos alunos.
Assim, a municipalização veio a toque de caixa, seguindo a decisão do governo estadual (na época Mário Covas) , sendo uma iniciativa essencialmente política e não pedagógica. O sistema de ensino do Estado optou pela "desresponsibilização" do Ensino Fundamental e Itapevi fez sua "lição de casa".
Algumas promessas feitas por conta da municipalização não foram cumpridas até hoje como, por exemplo, a garantia de transporte gratuito para alunos que precisassem se deslocar por mais de um quilômetro de suas casas até a escola.

Pedagogia x concurso
A Educação não pode ser monopólio de um sistema fechado, o professor tem o direito à liberdade de cátedra, ou seja, ministrar aulas de acordo com suas convicções político-pedagógicas. O conteúdo deveria ser universalizante para permitir a todos em qualquer parte do País os conhecimentos da Humanidade - obviamente sempre valorizando e relacionando-se com as realidades regionais.
Por isso, é estranho, por exemplo, a Prefeitura de Itapevi exigir de candidatos ao Concurso Público de Agentes Comunitários de Saúde - conhecimentos de Português com questões essencialmente gramaticais. Das 20 questões apresentadas, sete referiam-se à ortografia (encontrar palavras grafadas erradamente) e as demais a noções de morfologia, concordância e sintaxe. Não houve nenhuma questão com interpretação de texto ou mesmo de gramática textual. Ora, o que se quer provar quando se exige que uma pessoa saiba o significado da palavra "concelho" (com certeza, muitos universitários não sabem) ou ainda "elucubração", "opróbrio" e "concupiscência". Qual será a utilidade disso para trabalhar como agente de saúde?
Do ponto de vista do conteúdo (currículo) e estratégias de ensino (método), bem como dos objetivos (finalidades como desenvolver habilidades e competências) a serem aplicados na Educação Municipal, tais conhecimentos nas séries iniciais seriam duramente criticados.
Na segunda parte do Ensino Fundamental e no Ensino Médio, os professores cada vez mais ensinam a gramática a partir de diferentes textos.
É realmente muito estranho...

Dicionário Michaelis:
con.ce.lho sm (lat conciliu) Em Portugal, circunscrição administrativa que é uma subdivisão de distrito.
lu.cu.bra.ção sf (lat lucubratione) 1 Ato de lucubrar. 2 Trabalho intelectual noturno; vigília.
o.pró.brio sm (lat opprobriu) 1 Extrema abjeção. 2 A maior desonra; ignomínia. 3 Afronta, vergonha.
con.cu.pis.cên.cia sf (lat concupiscentia) 1 Grande desejo de bens ou gozos materiais. 2 Apetite carnal desordenado.

*Elioenai Piovezan
é professor de Língua Portuguesa
e Jornalista Profissional

 

Ramalho Ribeiro*

Aterro Sanitário paralisado

A questão do aterro sanitário de Itapevi tem sua origem na década de 1990. Em 1992, a administração municipal tentou implantar um depósito de lixo na Estância São Francisco, em Ambuitá, numa área distante cerca de 1.000m do local onde está hoje implantada a obra do aterro, paralisada recentemente pelo Superior Tribunal de Justiça. Na época, a comunidade conseguiu barrar o ato, através da Ação Civil Pública Ambiental movida no Ministério Público, que originou Medida Liminar com a determinação de cessar a deposição de lixo no local (Estrada Velha de Itu/Estrada dos Romeiros).
Na ocasião, o PT de Itapevi brigava contra a Prefeitura, procurando solução viável para depositar o lixo dacidade, pois estava sendo utilizada uma área pertencente à Cohab, hoje conhecida como Lixão das Quatro Encruzilhadas, onde já existia um projeto para a construção de um parque de lazer à população, projeto esse em andamento.
Na elaboração da Lei Orgânica do Município de Itapevi, promulgada pelos Vereadores Constituintes em 1990, o próprio PT apresentou emenda, cujo artigo 163 proibia a execução de aterro sanitáro nas proximidades onde houvesse nascente e núcleo populacional, justamente para salvaguardar, entre outros, a saúde da população, evitando assim cometer o erro das Quatro Encruzilhadas e preservando no futuro o meio ambiente.
Em 05/09/2000, deu entrada na Câmara Municipal (para ser apreciado em regime de urgência) Projeto de Lei da Prefeitura de Itapevi, determinando a construção de um aterro sanitário na Estância São Francisco, em Ambuitá. O projeto desrespeitou as leis ambientais do País e a própria Lei Orgânica do Município de Itapevi, que determina claramente a proibição de tal empreendimento no local.

COMUNIDADE SE MOBILIZA
As comunidades de Ambuitá, Amador Bueno e região sempre estiveram vigilantes quanto à deposição ilegal de lixo na área. Em 20/08/1997, por exemplo, o problema com o conhecido Lixão das Quatro Encruzilhadas originou representação no Ministério Público, para abertura de Inquérito Civil contra a Prefeitura de Itapevi.
Em 10/01/2001, a Audiência Pública realizada para a instalação do aterro sanitário em Ambuitá, foi amplamente contestada por autoridades, ambientalistas e representantes dos diversos segmentos da comunidade. Em 09/03/2001, o engenheiro Ithamar Canal, residente a poucos metros do local da futura obra, enviou Relatório à Cetesb, em atenção ao Ouvidor Sr. Paulo Peixoto, contestando o Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/RIMA). Convidado pela Associaçã de Moradores (AMESFA), o prof. Aziz Ab`Saber, uma das maiores autoridades ambientalistas do País, se posicionou contra a instalação do aterro sanitário na Estância São Francisco/Ambuitá. Em 4 e 6 de abril de 2001, o munícipe Alberto Nunes Filho, antigo morador do bairro, solicitou ao Ministério Público Ação Pública para impedir esse verdadeiro "crime contra a terra fértil em que vivemos". Em 05/04/2001, a Academia Brasileira de Ciência Política (ABCP), com sede em São Paulo, Capital, ao tomar conhecimento do fato através do jornal O Estado de S. Paulo, que publicou ampla matéria a respeito do nefasto empreendimento, formalizou DENÚNCIA ÀS AUTORIDADES BRASILEIRAS. Uma Comissão de Moradores colheu quase 2.000 assinaturas contra a instalação do aterro sanitário. Os jornais A Voz da Cidade, Jornal da Gente, Gazeta de Cotia, Jornal do Trem, entre outros, sempre estiveram ao lado das Leis e do povo, publicando farto material informativo condenando o aterro sanitário de Itapevi.

ESTUDANTES DE ITAPEVI ENTRAM NALUTA
No dia 04/07/2003, a União dos Estudantes de Itapevi (UEI), representada pelo seu presidente Luciano de Oliveira e secretário Adauto Gomes, sob coordenação de Ramalho Ribeiro (líder comunitário e ecologista), e o jornalista João Valério (representando a imprensa de Itapevi), esteve no Ministério do Meio Ambiente, em Brasília-DF, entregando à ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, abaixo-assinados contendo cerca de 6 mil assinaturas contra a instalação do aterro sanitário, colhidas no município por estudantes locais, numa das maiores movimentações populares que Itapevi já teve.
O ato gerou grande impacto na opinião pública nacional, levando a Sra. ministra a tomar sérias decisões quanto ao meio ambiente, inclusive com a determinação de que a Educação Ambiental fosse matéria do currículo escolar. A própria prefeita de Itapevi, às pressas, teve que se justificar diante de repórteres da TV sobre o porquê da instalação de tal empreendimento numa área ambiental, contendo nascentes e grande núcleo populacional.

JUSTIÇA FEDERAL - 1a VARA CÍVEL
O DOE (Diário Oficial do Estado), edição de 08/06/2004-06-09), publicou a unânime decisão do Superior Tribunal Federal em que determina a paralisação do aterro sanitário de Itapevi: "... com a imediata paralisação do funcionamento do aterro sanitário GCR-Itapevi, até decisão final ou ulterior deliberação deste Juízo, sob pena de sanções processual, civil e criminal..."
Sobre voltar a operação o aterro sanitário, o engenheiro Ithamar Canal nos adiantou que os autores da Ação Popular contra o empreendimento acabam de ganhar uma importante etapa do processo. "Desde quando decidimos entrar nesta contenda, já decorreram mais de três anos, mas o processo ainda está na fase inicial. Até agora nossa luta foi somente quanto à manutenção da Liminar; na próxima fase se inicia o julgamento do mérito do processo. Isto ainda vai longe..."
Para Ramalho Ribeiro, que acompanha o assunto desde o início, "esta decisão judicial é uma das maiores vitórias conseguidas pela comunidade itapeviense, um vez que impossibilita gananciosos empresários a se utilizarem de verbas para o financiamento de possíveis candidaturas".
A vitória, até aqui conseguida, se deu graças à participação e empenho de todos os envolvidos, tais como os vereadores Sonia Salvarani e Dudu do Rainha; os Srs. Fernando Quilles, Lazinho, Ithamar Canal, entre outros tantos.
Deixo registrado que não somos contra aterro sanitário mas, sim, contra a forma e o local escolhido para o empreendimento (Estância São Francisco). Solicito à Prefeitura de Itapevi que construa um aterro exclusivo para o município, seu próprio aterro sanitário, dando como sugestão, por exemplo, uma vasta e conhecida área localizada ao lado da Castello Branco, após o Posto Borssato, sentido Sorocaba.

* Ramalho Ribeiro é juiz de paz,
líder comunitário e ecologista