| Ayrton Correa
GRUPO
ESCOLAR
MARECHAL CÂNDIDO RONDON
Uma pasta marrom, de couro, com aquele cheiro inconfundível de
novo. Com alça e duas divisões internas. Ainda não
se falava em mochila ou fichário. Era bolsa mesmo. Acho até
que era chamada de mala. É isso mesmo. "Pôs o lanche
na mala?" - "O caderno tal está na mala?". Perguntas
muitas vezes feitas, enquanto saíamos para a escola.
Fazendo parte do material escolar, uma caixa de lápis de cor. Dos
pequenos, com doze cores. Um estojo de madeira, com lápis preto,
borracha e apontador. Cadernos de linguagem, caligrafia, ocupações,
"para casa", desenho e aritmética. Brochuras, encapados
e com etiqueta. Uma cartilha. Caminho Suave. A de abelha; b de bola; c
de casa; d de dado; e de elefante...i de igreja... Um texto bonito, uma
poesia que, se não me falha a memória, chamava-se Ave Maria.
No espaço hoje ocupado pela Praça 18 de Fevereiro, a escola.
O Grupo Escolar Marechal Cândido Rondon. Dois galpões de
madeira, um de frente para o outro, acomodavam as salas de aulas. Dispostas,
se não me engano, uma de cada lado. Entre elas uma sala menor,
onde funcionavam a administração e secretaria.
Piso de assoalho caprichosamente encerado. Fileiras de carteiras duplas.
Grandes para acomodar dois alunos. Carteira com tinteiro embutido e fechado
com tampa de metal. Tinteiro para a caneta de pena. Usada do terceiro
ano em diante. Na frente, o quadro-negro e a mesa do professor. Essa era
a sala de aula. Verdadeiro santuário.
Cecília, Maria José, Sérgio, Gabi, Millani. Professores.
Álvaro, Rivail, Serginho, Walter, Luizinho. Alunos. Não
me lembro de muitos nomes. É possível que tenham sido meus
professores. É possível que tenham sido meus colegas de
classe.
Confesso que tentei ser mais preciso. Conseguir uma lista de nomes de
alunos e professores da minha turma. Turma de 1959 a 1962. Puxa! Quanto
tempo! Mas não consegui. Acho que não podem fornecer, ainda
que seja para resgatar história, matar saudade e, quem sabe, até
restabelecer contatos. Mas, fazer o quê? Fico, então, apenas
no pouco que restou na lembrança.
Calça curta, azul marinho, camisa e meias brancas e sapatos pretos.
Uniforme. Mala em uma das mãos e o gosto de novidade na cabeça.
Na companhia de adultos, pela rua de terra batida, passando pelos fundos
da estação. Sozinhos, cortava-se caminho, descendo pelo
cabo de aço. Ligação rápida entre a vila e
a escola. Sobrava mais tempo para as brincadeiras antes do início
das aulas.
Poucos minutos antes do horário, todos em fila para a entrada.
Beirando a parede para não atrapalhar a circulação
no pátio. Os menores primeiro. Mão no ombro do colega da
frente, para igualar a distância. Aguardando o som da sineta. Isso
mesmo, um pequeno sino, tocado pelo inspetor de alunos.
Na classe, cada um em seu lugar. Na carteira, o lápis e o caderno
de ocupação. Todos em pé, quando da entrada do professor
ou de um visitante. Silêncio total. Só o professor fala.
Os pensamentos divididos. Atenção à aula, pensamento
no lanche e ouvidos atentos para o sinal que anuncia a hora do recreio.
Hora de atravessar a rua, cruzar a ponte de madeira, alcançar o
parque que ficava entre o rio e a linha do trem. Divertir-se em seus brinquedos
feitos de madeira, correr por entre seus canteiros de flores, sentir a
areia sob os pés, deliciar-se com a paisagem ao redor e...cruzar
a ponte de volta.
Apenas alguns minutos. Quinze ou vinte talvez. Poucos e valiosos minutos.
Tempo suficiente para o lanche ou para a merenda preparada e servida pelo
Dona Joaninha. Para as brincadeiras, para limpar o suor do rosto e voltar
para o segundo período de aulas. Nos galpões de madeira
onde iniciamos nossos primeiros passos no mundo. Sob os cuidados de nossos
mestres e na companhia de muitos e novos amigos.
Um dia avisaram que o grupo escolar ia se mudar. Estavam construindo outro
prédio. Mais confortável e mais bonito, diziam. E se mudou
realmente. Escadas e corredores. O sino foi substituído pelo som
estridente de uma campainha elétrica. Tocada, sabe-se lá
por quem, com o apertar de um botão instalado na secretaria. Nosso
primeiro contato com o moderno.
Perdemos de vista os barracões, o assoalho encerado, o inspetor
de alunos, a sineta, o parque com sua ponte e sua flores, o rio, a linha
do trem e a paisagem ao redor.
Pouco tempo depois, cada um para seu lado. Perdemos de vista, também,
nossos mestres e nossos muitos e novos amigos.
Ayrton Corrêa é aposentado e reside em São Paulo.
Morou 30 anos em Itapevi. E-mail: ayco@superig.com.br.
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