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Frei Betto: "Jornais
não vendem
porque não sabem comunicar"
Jornalista
e escritor, o assessor de Lula diz que a mídia brasileira ignora
os movimentos sociais porque é voltada para os interesses da elite.
O jornalista Frei Betto sentencia: Os jornais não vendem
porque não sabem comunicar. Se fosse editor, o assessor especial
da Presidência para a Mobilização Social do Programa
Fome Zero inverteria a prioridade dada pelos veículos à
economia em relação aos direitos sociais. Na quinta-feira,
1º de julho, ele esteve em São Paulo falando primeiro para
um público de diretores de empresa, de manhã, depois para
funcionários de uma indústria química, a Fersol.
O tema mídia foi recorrente. Aos participantes da Conferência
Nacional 2004 de Empresas e Responsabilidade Social, promovida pelo Instituto
Ethos, ele ironizou a cobertura de economia: O mercado, como todos
sabemos, mora numa montanha e tem o celular dos comentaristas econômicos.
Aí diz que não gosta de tal atitude do governo e no dia
seguinte sabemos pelos jornais que o mercado não reagiu bem.
À noite, falando para lideranças da região de Mairinque
e Sorocaba (SP), cutucou a Folha de S. Paulo: Tem coisa que é
realidade. E nem a Folha de S. Paulo pode negar. Ela que é a sempre
primeira a dizer: Hay gobierno Lula, soy contra. E o Fome
Zero é uma realidade. A melhor coisa do governo Lula é o
combate à fome. Em entrevista à Agência Repórter
Social dada entre um e outro evento, Frei Betto apontou preconceito na
cobertura do Fome Zero. Para ele, a própria eleição
do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não foi explicada
pela imprensa porque ela ignora os movimentos sociais - e teria sido exatamente
a capilaridade dos movimentos sociais, diz o assessor, a responsável
pela eleição do amigo Lula, em sua quarta tentativa de chegar
ao Planalto. O motivo para o desprezo dessa realidade estaria no fato
de que a mídia é voltada para os interesses da elite
brasileira. Confira na íntegra a entrevista com o escritor
Frei Betto, autor de 50 livros, jornalista, político e teólogo:
Repórter Social - Como é a cobertura do Fome Zero na mídia
brasileira?
Frei Betto - Deixa muito a desejar. Porque o Fome Zero é uma política
de sucesso, que está beneficiando no mês de julho 4,1 milhões
de famílias, mais de 20 milhões de pessoas. Vamos chegar
no fim de ano a 6,5 milhões de famílias. Através
do programa Bolsa Famílias o Fome Zero já está implantado
em praticamente todos os municípios brasileiros. E no entanto a
mídia dá pouca repercussão, pouco espaço.
Talvez porque tenhamos iniciado o Fome Zero por cinco prioridades: o semi-árido
nordestino, as aldeias indígenas, os quilombolas, os acampamentos
do MST e os lixões. E nenhuma dessas prioridades se situa nos grandes
centros urbanos, onde se sedia a mídia brasileira de maior repercussão.
E este ano que estamos chegando às grandes metrópoles.
Repórter Social - Houve uma diminuição na cobertura
em relação ao início do governo...
Frei Betto - Houve uma cobertura inicial, diga-se de passagem, muito preconceituosa.
Porque muitos brasileiros, viciados por campanhas anteriores de combate
à fome, possivelmente imaginavam uma grande gincana de coleta de
alimentos e distribuição. E isso não é o Fome
Zero. Ou imaginavam filas de carretas, abarrotadas de sacos de alimentos,
saindo do Rio e São Paulo em direção ao Nordeste.
E também não é o Fome Zero. O Fome Zero não
é assistencialista. É uma política pública
de inclusão social. E por isso você só consegue sentir
o que é através da convivência com as pessoas naqueles
municípios diretamente beneficiados, onde há uma grande
circulação de riquezas, seja pela política de transferência
de renda, seja pela compra direta da agricultura familiar, que é
um dos recursos que o Fome Zero utiliza.
Repórter Social - Se não há apuração
porque há tantas sentenças sobre o programa nas páginas
de opinião, quase todas negativas?
Frei Betto - Não sei, talvez haja aí até uma falha
do próprio governo no sentido de aprimorar seus mecanismos de comunicação.
Mas é difícil para a gente avaliar a mídia. Eu sei
que a cobertura tem sido muito aquém do eixo do que o Fome Zero
efetivamente realiza no país. E há um detalhe bem sintomático:
desde das pesquisas de janeiro de 2003 até hoje, quando se fala
do que o governo melhor faz, sobretudo na área social, o Fome Zero
aparece sempre em primeiro lugar.
Repórter Social - O senhor falou de responsabilidade do próprio
governo. O fato de o orçamento específico para o ministério
ter diminuído de 2003 para 2004 e a demissão do ministro
José Graziano não induziram a esse descrédito do
programa na mídia?
Frei Betto - Foram sinalizações, na medida em que houve
uma readequação do Fome Zero, seja pela unificação
de todas as políticas de transferência de renda, todos os
programas do governo federal no Bolsa Família, seja pelo fato de
o presidente Lula ter decidido juntar dois ministérios e meio em
um só: o Ministério da Segurança Alimentar, o Ministério
de Promoção e Assistência Social e a Secretaria do
Bolsa-Família. Agora, isso alavancou (o programa). E não
é verdade que o recurso tenha caído. Porque o recurso caiu
em relação a uma secretaria específica do Ministério
do Desenvolvimento Social, que é a que cuida da segurança
alimentar. Mas o MDS é uma estrutura muito maior do que uma secretaria.
E tem R$ 15 bilhões na mão. Se você considerar que
o ministro Graziano tinha R$ 1,7 bilhão, a diferença é
bastante significativa. Só para transferência de renda tem
quase R$ 6 bilhões.
Repórter Social - O senhor disse durante o evento do Ethos que
o mercado mora numa montanha e tem o celular dos comentaristas econômicos.
Para o senhor a cobertura de mercado é desproporcional em relação
à cobertura da cena social brasileira?
Frei Betto - Ah, sim. Eu sou jornalista. Então tenho muita sensibilidade
para a mídia. Trabalhei muitos anos em veículos de comunicação,
principalmente na imprensa escrita. E continuo colaborando com ela. Acho
que há desproporção em termos do espaço reservado
à economia, e principalmente o hermetismo da linguagem da economia,
o economês. Não entendo porque os grandes veículos
de comunicação não fazem o que a televisão
e o rádio são obrigados a fazer, traduzir o economês,
em algo que didaticamente o receptor possa entender. As colunas de economia
nos jornais, os artigos são muito herméticos. E os jornais
se queixam que não vendem. Não vendem porque não
sabem comunicar. E reservam muito espaço a um assunto muito árido,
como as oscilações do mercado, e pouco espaço a assuntos
de impacto, como são os direitos sociais. E certamente os leitores
têm muito interesse por isso. Fosse eu editor de jornal, inverteria
essa prioridade.
Repórter Social - O 3º Fórum Social Mundial teve 100
mil pessoas, e a maior tiragem de jornal está por volta de 300
mil. O senhor acha que os jornais vão acabar se rendendo à
crescente mobilização social por questões de mercado?
Frei Betto - Eu não sei. É difícil prever. De qualquer
maneira tem muitos eventos que ocorrem neste país e a mídia
nem toma conhecimento, embora sejam muito importantes. Por exemplo, a
Jornada de Literatura de Passo Fundo, que ocorre de dois em dois anos.
Ela é, sob todos os pontos de vista, exceto o comercial, que ela
não tem esse caráter, mais importante que a Bienal do Livro
do Rio, que a Bienal do Livro de São Paulo. No entanto ninguém
fala dela, a não ser alguma notinha aqui e ali. Ela reúne
10 mil pessoas devidamente preparadas, com meses de antecedência,
para dialogar com os autores. Tem um conteúdo que não é
meramente consumista, na venda de livros, e ninguém fala. Poderia
citar muitos outros exemplos. Eu não vi nenhum veículo da
mídia explicar o que aconteceu para, após quatro tentativas,
Lula ser eleito presidente do país. Não é só
um jogo de marketing e publicidade. É uma capilaridade de movimentos
sociais por esse Brasil afora que só merecem espaço na mídia
no caso de polícia, como é o exemplo do MST. A mídia
brasileira ignora os movimentos sociais, ignora a atuação
deles, a luta deles, porque é uma mídia elitista, voltada
para os interesses da elite brasileira.
(...)
Repórter Social - Como fazer para que o jornalismo político
cubra menos bastidores e mais administração?
Frei Betto - Isso seria o ideal. Agora, como reverter não tenho
a fórmula mágica. Seria interessante que houvesse um jornalismo
menos espetacular, menos especulativo a respeito dos bastidores do poder,
e que mostrasse o que uma administração faz ou deixa de
fazer, enfim, desse uma informação e uma formação
maior para os leitores.
(...)
Repórter Social - Mas os donos dos meios de comunicação
impedem de alguma forma?
Feri Betto - Impedem, na medida em que o interesse deles é primeiro
o mercado, vender o espaço publicitário, segundo manter
uma linha política e ideológica, que está se refletindo
nos seus editoriais, e que reflete em interesses corporativos. Ninguém
tem um veículo de comunicação na mão só
para informar, venha de onde vier, a verdade da informação.
Toda informação tem um conteúdo ideológico,
de tendência muito forte.
Fonte: Repórter Social, texto de Alceu Luis
Castilho.
In http://www.comunique-se.com.br
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