| Ayrton Correa
UMA
PEDRADA NA HISTÓRIA
- Você
gostaria de ter uma rua com seu nome?
- Parece uma boa idéia. Só não me agrada muito porque
a gente tem de morrer primeiro pra depois ser homenageado.
- Tem razão. E depois, ninguém mais vai se lembrar da gente
e a placa não tem mais sentido.
- Olha, pensando bem, é melhor deixar pra lá esse negócio
de ter nome na placa de rua. Não vai servir pra nada mesmo.
E os dois trocaram de assunto. Por alguns minutos sonharam com a fama,
mas chegaram à conclusão que não valia a pena. E
eu segui em frente, distraído, até que uma cena me chamou
a atenção. Uma tremenda coincidência.
- O que você está fazendo, garoto? Perguntei.
- Treinando minha pontaria, respondeu.
A resposta foi rápida. Na lata. Eu pensei em lhe fazer outras perguntas,
mas acabei desistindo. O que ele estava fazendo lhe parecia tão
natural, que o único surpreso ali era eu.
De estilingue em punho, ele continuava sua tarefa. E era bom de pontaria.
Com certeza treinava com freqüência, pois o alvo já
estava bastante danificado.
Uma cena comum: um menino, um estilingue e um alvo. Nada que se admirar,
não fosse o alvo. Uma placa de rua. Isso mesmo uma placa com o
nome da rua. O nome quase ilegível, tantas vezes fora acertado
pelas pedras.
Fui até a cidade e, na volta, passei pelo mesmo lugar. Mesma placa,
mesmo garoto, mesmo treinamento. Não resisti e lhe fiz mais uma
pergunta:
- Você sabe de quem é o nome que está escrito nesta
placa?
- Não faço a menor idéia, respondeu, sem se mostrar
interessado.
Eu sabia. Conheci a pessoa que mereceu aquela homenagem. Sabia da sua
importância para o nosso bairro.
A caminho de casa, encontrei outro garoto e resolvi fazer uma experiência.
Perguntei-lhe se sabia de quem é nome na placa colocada na fachada
da casa da esquina. Não sabia. E olha que era o nome de um dos
primeiros moradores da vila. Perguntei a mais um, a outro, mais outro
e a um quinto garoto. Nada. "Não faço a menor idéia",
foi a resposta de todos.
Aí fiquei pensativo. Por que será que dão nome de
pessoas às ruas, se ninguém sabe quem foram essas pessoas?
A confusão ainda é maior quando resolvem inventar títulos
para o homenageado. Chamam de doutor a quem nem escola fez ou, de professor,
a quem nunca deu aulas. Nem seus amigos os reconhecem. Não sabem
se o Dr. José da Silva é o mesmo José da Silva. O
Zé do Truco, como era conhecido. Será que o Prof. José
Bento é o nosso Bentinho, companheiro de pescaria? Não pode
ser. Ele mal sabia ler.
"Você gostaria de ter uma rua com seu nome?", lembrei-me
da conversa daqueles dois lá no início. Melhor não.
Melhor não se arriscar a servir de alvo para um estilingue mal
informado. Um estilingue a quem não ensinaram a história
de seu bairro. A história de sua cidade. Um estilingue que não
conhece a história de seus homenageados. Um estilingue que nunca
ouviu falar em Benedito Corrêa, Rafael Barranco, Carolina de Abreu
Paulino, Manoel Alves Mendes, Leopoldina de Camargo, Eduardo de Abreu,
Ana Maria Vaz, Irineu Challupe, Eugênio Silva...
Ayrton Corrêa é aposentado e reside em São Paulo.
Morou 30 anos em Itapevi. ayco@superig.com.br
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