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Naquele
domingo acordei mais cedo que de costume. Dia de votar. E eu voto na minha
cidade. Primeiro, porque é uma forma de participar de sua administração
e, segundo, pela oportunidade de rever amigos.
- Puxa vida, cara, quanto tempo! Era o começo de conversa. Conversa
que avançaria por mais de uma hora. Um amigo de há muito;
de infância.
- Ei! o que vocês dois estão fazendo por aqui? Outro amigo.
Também dos antigos. E ali ficamos a conversar. Eles
com o dever já cumprido e eu, a caminho das urnas. Era cedo ainda;
não havia pressa.
Como não podia ser diferente, começamos pela política.
Em quem votar, em quem não votar, porque votar neste ou naquele
e por aí em diante. Lembramos dos políticos antigos, dos
primeiros. Das disputas acirradas. E mudamos de assunto.
- Por que, em um de seus artigos, você falou do clube de futebol
do Portela e não mencionou o campo que havia entre a linha e o
rio? Nem falou dos atletas daquele tempo?
Eu respondi que daquela época me lembro muito pouco. Tenho poucas
informações. Só por isso.
Ele me contou que foi craque de bola. Não fazia gols, mas dava
passes que eram meio gol. Falou do jogo entre o time dele, Frigorífico,
se não me engano, contra a equipe da Polícia Militar. Entrou
no segundo tempo e, num lançamento preciso, garantiu a vitória
para seu time. Lembrou que viera para o bairro quando adolescente. Tinha
vindo da cidade grande, direto para aquele matagal. A adaptação
não foi fácil. Mas aprendeu a gostar dali. Até apelido
ele ganhou. No começo incomodava, mas depois aceitou numa
boa.
- Eu vim pra cá ainda criança, falou o outro amigo. Trabalhei
na fábrica de vinho. Isso aqui tinha poucas casas. A do seu Pedro,
a do seu Cesário e a do seu Rafael, seu Joaquim, as casinhas da
chácara, a do seu Lino, a do seu Luiz, do seu Santana e a do Espanhol.
A do seu Zé, do seu Mané, do seu Sebastião, o sobrado
e o bar da escadaria. A do seu Juventino, do seu Dito, a do seu Darcy
e a do seu Dante. Sem muita certeza se já existiam todas elas ou
se ficou faltando alguma.
Contaram, meus amigos, que um dia D. Amélia tentou parar uma partida
de futebol, no campo perto da linha, só porque estava na hora do
time dela jogar. Sem ser atendida e sem acordo, mandou seus jogadores
tirarem as traves do campo e foi embora. Não adiantou. Nem bem
viraram as costas, ela e seu time, e o jogo continuou. Improvisaram novas
traves com eucaliptos cortados, na hora, pelo seu Dito Jorge.
Lembraram que o Léia, com uma arma na mão, pôs pra
correr um cara maior que ele. E que correu todo o caminho de volta, quando
o sujeito descobriu que a arma era de brinquedo.
Falaram das olarias, da curva do rio, perto da ponte. Dos mergulhos, dos
bagres e lambaris. Da carne de paca, caçada na mata dos arredores.
Da inauguração da luz elétrica. Das festas juninas
organizadas por D. Glória, D. Conceição e D. Maria.
Barracas na rua, à época, Rio Branco. De alguns moradores
antigos. Zé Grilo, Zé Boiadeiro, seu Emílio, Vicentão,
seu Décio, Zé Pinguinha, Casemiro, seu Júlio. Lembranças
das escaladas nas janelas do América, em dia de baile, para admirar
as mulheres dançando.
E, por fim, nos lembramos que era hora de dizer até logo. De ir
cada um para o seu lado. Cair na rotina que toma nosso tempo e dificulta
encontros como esse. Encontros que nos dão muitas alegrias.
Um dia vamos contar essas histórias todas em detalhes. Prometemos.
Contar um pouco da origem de um dos mais antigos bairros de nossa cidade.
Não marcamos data. Um dia...talvez.
Ayrton Corrêa é aposentado e reside em São Paulo.
Morou 30 anos em Itapevi. ayco@superig.com.br
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