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A
estrela cadente cruza o céu da cidadezinha do interior. O menino e a menina
que conversavam distraidamente, sentados na beirada do muro, olharam curiosos.
Conhecem uma história com começo parecido. Uma história que passa de geração
a geração. Continuaram a conversa que haviam interrompido por alguns segundos.
Falam até pelos cotovelos, como se costuma dizer de quem fala demais.
Suas idades estão por volta de oito a nove anos. Dez, se muito. Dentro
da casa, os adultos também conversam. As pessoas, com roupas de missa,
começam a circular pelas ruas do bairro. Conversam alto, riem muito. Estão
alegres. Isso as crianças percebem. Voltam a conversar. Gesticulam. Apontam
para todos os lados. A conversa está animada. De vez em quando, descem
do muro, inventam uma brincadeira qualquer, e voltam a conversar. Não
podem sujar a roupas. Também estão vestidos para a missa. Vão, com os
adultos, à igreja matriz. Assistir à Missa do Galo. Outra estrela cruza
os céus. Desta vez, mais brilhante e mais lentamente. Como que a indicar
um caminho. As crianças a acompanham com o olhar e têm a impressão de
que ela desceu ali pertinho. Atrás de algumas árvores. Logo depois da
rua que passa no fundo da casa. Num pulo, descem do muro e vão em direção
ao caminho indicado pela estrela. Pé ante pé se aproximam de uma claridade
vinda de trás de um arbusto. Silenciosamente chegam mais perto e quase
caem de costa com o que vêm. Conhecem aquela região como ninguém e nunca
tinham visto nada parecido. Uma estrebaria, onde se recolhe animais e
arreios. No centro uma manjedoura, um cocho para o capim e ração. A luz
vinha da estrela que viram passar e que se acomodava confortavelmente
próximo à cobertura de sapé do pequeno abrigo. De onde estavam, não conseguiam
enxergar o que havia dentro da manjedoura, em meio ao capim cuidadosamente
arrumado, preparada para uma ocasião especial. Nem precisavam ver. Eram
capazes de adivinhar. Silenciosos como chegaram, as crianças voltaram
para casa. Queriam contar o que viram, aos adultos. No caminho pensaram
bem e desistiram. Eles não acreditariam. Diriam, com certeza, que estavam
sonhando. Que aquilo aconteceu há muito tempo, muito longe dali, em um
lugar chamado Belém. Se meu avô, que hoje mora perto das estrelas, estivesse
ali eu contaria, disse o menino. Ele ia acreditar. Uma vez ele nos disse
que Belém pode ser qualquer lugar. Onde e quando quisermos que seja. Que
o Menino Jesus nasce na manjedoura que preparamos em nosso coração.
Ayrton Corrêa é aposentado e reside em São Paulo.
Morou 30 anos em Itapevi. ayco@superig.com.br
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