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Era
uma manhã de primavera. O sol se mostrava tímido, mas firme.
Zelão tomava café com sua mãe. Falavam sobre a dificuldade
de arranjar trabalho; enquanto ouvia o sermão da mãe que
o condenava por não ter estudado e adquirido uma profissão,
Zelão foi despertado por uma idéia. Sorriu e disse: não
esquenta, mãe. Vou falar com o mano. Ele vai me dá uma força.
Assim fez. Lá foi o Zelão prá casa do mano, que situava
a mais ou menos cinco quilômetros. Foi a pé. Estava feliz
e esparonçoso. Na casa do mano: e aí Serjão!? Tô
precisando de uma força, cara! A mãe tá me comendo
pelas bordas. Diz que eu tenho que trabalhar! Que não posso ficar
o dia inteiro vendo televisão! Que isso e mais aquilo... então
eu pensei: podia te ajudar na venda dos produtos de limpeza, você
medá uns troco prá eu ajudar a velha, ela sossega, eu vou
levando até arranjar coisa melhor. Fechado!? Fechado respondeu
o irmão. Zelão apesar de não ter completado o segundo
grau era inteligente; ligeiro nas contas, ágil no raciocínio,
era difícil enganá-lo. Enquanto o irmão dirigia o
caminhão e atendia a freguesia, Zelão fazia o troco e separava
os vasilhames. Achava engraçado as brincadeiras que Serjão
fazia com as mulheres da sua fregueseia: Oi dona Marta, esse é
o Zelão meu irmão! Candidato a vereador. "Com Zelão
eleito seu bairro fica bão"! Serjão ria. A freguesia
achava engraçado. Zelão sorria encabulado. Aquele refrão
foi criando raízes na sua mente. Comentava com o irmão:
essa sua idéia de candidato não é má. Eu posso
ser candidato. Tenho capacidade. O irmão retrucou gozador: Só
tem mano! Só tem!... Cê faz o seguinte: entra prá
Igreja. Fica amigo do pastor. Participa das atividades de uma associação
de amigos do bairro, fica lá até se tornar bem conhecido,
depois você escolhe um partido para se filiar e tá pronto
o angu. Depois é só sair gritando prá todo mundo
que você é candidato. Que vai fazer chover dinheiro! Que
ninguém vai ficar sem trabalho! Que sua prioridade de mandato é
a saúde! Que esse é seu estilo! Finca o pé no refrão:
"a saúde é minha prioridade!". Prá todo
mundo você diz que eles podem anotar. Não tem erro, mano,
cê tá eleito! Eleito!!! Gritava Serjão, rindo da cara
do Zelão, que estava extasiado; os olhos brilhando; a mente viajando
no tempo, se via recebendo o diploma de vereador, no dia da posse em sessão
solene. Serjão continuava: Eleito! Vou ser assessor do parlamentar
Zelão, "O Bão!". Brincava. O tempo passou. Zelão
casou, separou, casou de novo. Comprou um pequeno caminhão, que
era a alegria dos mecânicos, e seguia os passos do mano na venda
dos produtos de limpeza. Tornou-se evangélico por pressão
da mulher. Era presidente de uma sociedade de AA. Estava candidato a presidente
da sociedade amigos do bairro. Tudo foi acontecendo na vida do Zelão
sem mesmo que ele percebesse. Um dia, o pastor chama Zelão na sua
sala e diz: Zelão, seu nome é mais conhecido que mosca no
mel, nós estamos sem candidato aqui no bairro, eu não posso
porque a minha igreja não aprovaria, mas você poderia ser
a nossa voz na tribuna. Por que você não se candidata? Se
você aceitar eu arranjo tudo. Do partido ao financiamento da campanha.
Zelão pigarreou. Limpou a garganta e disse: Pastor, tudo que eu
faço ou venha fazer, eu troco idéia com o mano. O senhor
me dá um tempo de três dias? Tudo bem disse o pastor. Tudo
bem. Zelão saindo vira-se e pergunta, atordoado pela surpresa do
convite: O que eu vou fazer lá? Nunca trabalhei de vereador! Respondeu
o evangélico: não se preocupe, eu te ensino... Zelão
foi para casa. Não comentou nada com a esposa. Só disse
que ia na casa do mano pegar produto. Zelão encontrou o irmão
no portão, que estranhou a presença do Zelão naquela
hora. Zelão foi logo dizendo: o pastor me convidou prá ser
candidato a vereador, qual a sua opinião? Serjão olhou Zelão
nos olhos. Sorriu. Riu. Depos disse: aceita. Aceita e me leva como teu
secretário, assessor, segurança e sei lá o quê!
Zelão disse meio sem esperança: mano, eu não entendo
nada de política. Não precisa, retrucou o irmão.
Basta enganar. Diz que você vai cuidar da saúde, que esse
é seu esitlo. Faz uma cara de sofredor, que você tá
eleito. Não esquenta. Vem, mano, vamos brindar a sua candidatura...
Zelão sem saber nada. Sem consciência, sem instrução
suficiente, foi diplomado e tomou posse dia primeiro.
Ibsen Wilde Dalla Déa é jornalista, ator, professor e diretor
teatral
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