:: Contando História
BRINCANDO DE RECORDAR

No par ou ímpar, a decisão de quem será o mocinho. Aquele que ganha sempre. O herói dos seriados da matinê ou dos gibis. O invencível e que representa a vitória do bem sobre o mal. Os outros, não importa quantos, farão o papel de bandidos. Vão correr, lutar e espernear, mas acabarão vencidos. Presos ou mortos pelas balas certeiras saídas dos revólveres caprichosamente esculpidos em madeira. Cinturão com cartucheira de couro, costurada à mão. De pano de guarda-chuva, a máscara que fazia aparecer, como que por milagre, o Cavaleiro Negro ou o Zorro. Montados em seus velozes cavalos que, nas horas de folga, se faziam passar por simples cabos de vassouras, percorriam as planícies fazendo justiça.
Mais uma vez o par ou ímpar decidia a jogada. Agora para saber quem seria o boi. Brincar de boiada era, acredito, exclusividade da molecada do bairro. Afinal , só ali passava boiada. Três ou quatro seriam boiadeiros. Em seus fogosos cavalos de piaçava e com longas capas da imaginação sobre as costas, estalavam seus chicotes. No ar, rodopiavam o laço certeiro que iria desencorajar quem ousasse se desgarrar.
Na latinha, a variação do esconde-esconde. O tempo para se esconder era igual àquele que se demorava para buscar a latinha atirada longe por um dos participantes. Latinha na cela. A busca pelos escondidos. Distração e o grito “latinha, um, dois, três”.
Na outra cela o pião. Atirado com força. Rodando com elegância, ia tirando do círculo os piões celados. Entalhes na madeira e o pião zunia com mais vigor. Alguns eram coloridos com lápis de cor.
E a malha, quem não se lembra? De metal e pesada. Percorria a pista em busca do pino. Arremessada com destreza, repousava a poucos centímetros do alvo. Pino vale quatro pontos. No círculo, dois. Partidas de vinte e quatro e cinqüenta pontos, em melhor de três.
Do mato a vassourinha, a taboa o cipó e as varetas. Material de construção. Terreno preparado. Mutirão e, poucos minutos, a cabana. Cabana para o índio, para o mocinho, para o bandido ou apenas para descansar. Cabanas com cômodos, portas e janelas. Cabanas do sossego.
O colorido contra a luz do sol. Contraste contra as nuvens. Dança e acrobacias no céu. A pipa ou o papagaio, como era mais conhecida. Linha Corrente número 24. A mais forte. Um, dois, três carretéis? Dependia das economias. Na vareta de bambu fincada junto ao portão, os papagaios de muitas cores. À venda. Presos à linha curta e balançando ao vento. Tentação.
Ah, tinha também o tiro ao alvo. Arco de madeira encurvada e arame. Flecha de vareta de guarda-chuva. Num lado, penas. No outro, ponta afiada. Portas, janelas, árvores tronco de bananeira: alvos. E da goiabeira a melhor forquilha. Da língua do sapato, a melhor malha. Da bicicletaria a melhor borracha. Bolinhas de vidro ou de barro, pedras e mamona, a munição para os estilingues.
Quem “estecar” mais forte e tiver melhor pontaria ganha o jogo. Box na terra batida. Bolinhas de vidro coloridas. As de carambola, sensações de uma época.
Pêra, uva ou maçã? Descoberta a brincadeira do agarrou-beijou. Aperto de mão, abraço ou beijo? Cada um em seu lugar. Portas e janelas fechadas. Frestas calafetadas. Totalmente sem luz. Escuridão. Invenção nossa. Era o início do fim das brincadeiras de criança. O início do fim do Clube do Bolinha.


Ayrton Corrêa é aposentado e reside em São Paulo.
Morou 30 anos em Itapevi.
ayco@superig.com.br