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A FARRA DO BOI, SEGUNDO A PLATÉIA

Quem era a platéia? Nós, meninos entre seis e doze anos de idade.
O palco? O mangueirão próximo à estação ferroviária e que servia para acomodar o gado descarregado das gaiolas, até o momento de conduzi-lo ao frigorífico, pelas ruas que atravessavam a vila.
A arquibancada? O barrancão, como era conhecido o barranco que ficava dentro e ao fundo do mangueirão, onde se apinhava a platéia para assistir ao espetáculo do descarregamento da boiada.
O mangueirão era um cercado feito com grossas pranchas pregadas horizontalmente nos mourões, com pesadas porteiras que, quando abertas, formavam um corredor de ligação entre o mangueirão e a porta da gaiola por onde deveria sair o gado.
Vale dizer que a rua, durante o descarregamento, ficava interditada. Por quanto tempo? Depende. Se tudo corresse bem, algo em torno de uma hora. Caso contrário, sem estimativa.
O movimento dos boiadeiros com suas montarias era o aviso de que haveria espetáculo. Roupas rústicas, botas de cano alto, chapéu de couro e equipados com laços e chicotes, aos olhos de criança, pareciam gigantes. Se frio ou chuva, a enorme capa que cobria inclusive boa parte da montaria, lhes emprestava um toque ainda maior de imponência. Seu Lourenço, seu França, seu Zé Boiadeiro, seu João Boiadeiro, seu Ernesto, seu Sebastião, seu Lindolfo...
Todos a postos. O show vai começar. A máquina a óleo termina a manobra para colocar as gaiolas no desvio. Desengata-se, indo embora. Os boiadeiros abrem as portinholas que permitem a passagem do gado de um para outro vagão. O trem todo é um único corredor com acesso ao mangueirão.
No barrancão começa a torcida. Torcida para que alguns daqueles animais resolvam fugir. Retardar seu destino. E a corrente de pensamentos é tão forte que quase sempre a rotina do descarregamento é quebrada por um ou mais bois que resolvem escapar ao controle.
A correria é geral. A garotada procura um melhor lugar para acompanhar todos os detalhes. Os boiadeiros param o que estavam fazendo e correm para suas mulas. Saem na captura do animal desgarrado. Na estação, as pessoas procuram um lugar para se esconder. Nas ruas o corre-corre desordenado, à procura de um barranco, uma casa ou uma árvore que sirva de abrigo para escapar do animal em fuga.
E lá do alto do morro a visão é de pura diversão. Tudo é muito engraçado. As pessoas correndo de um lado para outro. Os boiadeiros errando suas laçadas. Os bois escondendo-se no matagal à beira da estrada. A platéia vai ao delírio, quando outros animais, aproveitando a confusão, fogem do mangueirão, aumentando a “dor de cabeça” dos responsáveis pela sua captura.
Como tudo que é bom dura pouco, a caçada também tem fim. Os fugitivos são reconduzidos ao cercado. Em alguns casos, derrubados e amarrados pelo boiadeiro. Mais tarde o “Jipão” virá buscá-los.
A porteira do mangueirão é aberta. Sob o estalar dos chicotes a boiada inicia sua caminhada para o frigorífico. A criançada desce do morro e acompanha sua marcha pela vila.
Agora é só esperar pelo próximo trem de bois.

Ayrton Corrêa é aposentado e reside em São Paulo.
Morou 30 anos em Itapevi.
ayco@superig.com.br