E A SAÚDE, COMO VAI?

Os campos de futebol espalhados pelos quatro cantos da cidade garantiam um bom condicionamento físico. Natação, nas águas dos açudes, rios e lagoas e as escaladas nos barrancos ou nas árvores em busca de frutas serviam como complemento. A alimentação sadia ficava por conta do pomar, com as frutas sobrando. Repasto dos pássaros e da molecada que pouco procurava casa quando a fome apertava. Na mesa, a verdura trazida da horta lá do fundo do quintal, perto do galinheiro de onde eram trazidos os ovos e, vez ou outra, o assado do fim de semana.
Sem controle remoto, não havia como economizar pequenas caminhadas. Mudar a estação do rádio exigia andar. Caminhar fazia parte da rotina diária. Caminhava-se para ir ao banheiro que ficava fora da casa. Para ir à venda comprar mantimentos. Para ir à missa de domingo. Para visitar amigos. Caminhava-se para pegar o trem que levava à cidade grande. Caminhava-se para acompanhar enterros e procissões.
As cordas vocais também eram muito exercitadas. Conversar fazia parte das coisas boas da vida. Conversa séria, de negócio. Conversa de botequim. Conversa de moleque. Conversa de comadre. Conversa fiada. Conversa mole. Conversa cara-a-cara. Aliás, todas as conversas eram cara-a-cara. Sem telefone, sem computador, sem e-mail.
Evidente que nem tudo eram flores. Havia as doenças. Sarampo, catapora, caxumba, quebranto, lombriga e buxo virado. Nada, no entanto, que uma boa simpatia ou um chá caseiro não curasse. Tinha, também, que se ter cuidado com as drogas. Cachaça, fumo de corda, cachimbo e cigarro de palha. Mais perigos. Abelhas, cobras, escorpiões, boi desgarrado e cachorro louco.
Então a cidade começa a crescer. O homem, em busca de espaço, loteia os campos de futebol, aterra lagos e açudes, corta árvores e polui os rios. Espanta para longe os bichos peçonhentos e o boi desgarrado. Nem o cachorro encontra tempo para ficar louco.
Nossas crianças correm... para a frente da televisão. Passam horas exercitando os dedos... no controle do vídeo game. Olhos esbugalhados e fixos na telinha. Exercitam a voz no celular e batem papo pelo computador.
Os adultos se recolhem em suas casas e se movimentam apenas o estritamente necessário. Levam o controle remoto e o telefone sem fio para toda parte. Freqüentam cada vez mais o sofá da sala.
As doenças se tornam mais resistentes. Chás caseiros e simpatias são substituídos por drogas cada vez mais fortes. Consertam aqui, entortam acolá. Os remédios começam a fazer parte da lista de compras da família.
Na visita ao médico, o conselho: o senhor precisa parar de fumar, deixar a pinguinha de lado e praticar exercícios. O senhor está muito gordo, precisa perder peso.
Meu amigo tinha vindo de uma dessas visitas. Parou de fumar e ficou mal humorado. Largou a pinguinha e anda sem assunto pelos cantos da casa.
Quando lhe perguntei sobre os exercícios, ele me disse que tem procurado seguir à risca o que o doutor mandou, mas tem encontrado um pouco de dificuldade - Sabe como é, né, não tem mais lagoas e rios. Nadar em piscina custa caro. Futebol, como exercício, só em quadras e campos alugados; também fica caro. Então, resolvi caminhar todos os dias. Na falta de um espaço adequado e de graça, ando do colégio até a rotatória, ida e volta, tragando as fumaça dos escapamentos. Confesso que já estou me sentindo bem melhor. Se não perder o peso de uma só vez, vítima de assalto, problemas nos pulmões ou atropelamento, até o final do ano perco os quilinhos que estão sobrando e recupero minha saúde.


Ayrton Corrêa é aposentado e reside em São Paulo.
Morou 30 anos em Itapevi.
ayco@superig.com.br