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Passados todos esses
anos, tive a oportunidade de conversar com alguns boiadeiros. Hoje aposentados
ou em outra atividade. Conduzir boiada virou coisa do passado, depois
da construção de um desvio da via férrea. Descarregamento
dentro do frigorífico. Boi desgarrado, quase impossível.
Platéia como a do barrancão, nem pensar. Afinal, o espetáculo
passou a ser promovido nas dependências de uma propriedade privada.
Imaginem que o seu Güido ia permitir a entrada daqueles garotos que
torciam contra os boiadeiros!
Foi muito bom ter trocado algumas idéias com esse pessoal. Principalmente
depois de muito tempo. Conhecer um pouco do outro lado. O lado mais próximo
dos palcos. Mais próximo dos bastidores. O show da vida real.
E que vida dura a deles! Horário de trabalho, só no papel.
Na prática, viviam em constante estado de prontidão. Podiam
ser chamados a qualquer hora do dia ou da noite e em qualquer dia da semana
para atender a alguma emergência. Um descarregamento não
programado. Um estouro de boiada. Um boi que aproveitou uma porteira mal
fechada.
Quando chamados, não importava a hora, saiam correndo. Moravam,
todos eles, o mais próximo possível do frigorífico.
Pra que chegassem logo.
A condução de boiadas por dentro de povoados, com essas
conversas fiquei sabendo, era comum em muitos lugares. O seu Sebastião,
por exemplo, me contou que antes de vir para Itapevi, ele tocava boiadas
onde hoje é cidade. Saía de Domingos de Moraes, atravessava
muitos bairros de São Paulo, até chegar em Guarulhos.
Para nós, crianças, era impossível olhar todo aquele
espetáculo por um ângulo mais sério. Real. Sem fantasias.
Enxergar o lado da obrigação profissional. Do pai de família
que buscava, na condução da boiada, o pão de cada
dia. Farra para nós era farra e ponto final. Fosse a hora que fosse.
Não nos importávamos, por exemplo, quando o grito de um
empregado do frigorífico, em plena madrugada, transformava o pai
de família em boiadeiro. Sair de madrugada, em meio ao frio e chuva,
era rotina, contou-me um deles. Deixavam o calor das cobertas, a esposa
e os filhos dormindo.
Acorda, Zé Pintado! Acorda, Lindolfo! Acorda, Lourenço!
Acorda, João! Acorda, França! Acorda, Ernesto! Acorda, Bastião!
E lá iam eles nas mulas trazidas pelo empregado. Pulavam apressados
para a sela. Homem e animal ainda sonolentos. Não adiantava esperá-los
para o café da manhã. Não tinham hora para voltar.
Alheios a tudo isso, moleques, corríamos atrás da boiada.
Chegávamos a atrapalhar, sim, disse-me um deles. Nossa correria
deixava o gado nervoso. Gado e condutor. Uma ponta de chicote nas pernas
nuas até que ia bem. Mas não. Nem ao menos uma palavra ou
atitude agressiva. Tolerantes, ainda que cansados e com seus muitos problemas.
Tolerantes e amigos.
Apesar das dificuldades próprias do ofício e da vida difícil
que levavam, eles sentem saudades daqueles tempos. E nós, hoje
adultos, também sentimos saudades. Do toque do berrante chamando
pelo boi que ficou para trás. Do estalar dos chicotes marcando
o ritmo da caminhada. Sentimos falta dos boiadeiros nas mesas de truco
de nossos bares. Sentimos falta dos boiadeiros pelas ruas do nosso bairro.
Ayrton Corrêa é aposentado e reside em São
Paulo.
Morou 30 anos em Itapevi (ayco@superig.com.br)
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